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Quem ainda torce para a seleção brasileira?

gustavochacra

07 Junho 2016 | 11h56

No sábado, jantei com três amigos. Todos foram, no passado, fanáticos por futebol. Contavam dos tempos que frequentavam os jogos do Flamengo no Rio de Janeiro e das saudades do Maracanã agora que vivem nos EUA. Eu também ainda guardo na minha memória o Palmeiras e o Parque Antártica. Nenhum de nós, no entanto, comentou sobre o jogo da seleção brasileira contra o Equador que ocorria naquele exato momento. Não assistimos e tampouco nos preocupamos em saber o resultado. Nem sabíamos direito contra quem jogávamos. E não era amistoso, mas um jogo oficial da Copa América.

Sei que, como nós, muitas outras pessoas passaram a ser indiferentes em relação à seleção brasileira. Não ficam felizes nem tristes se perdermos ou ganharmos. Muitos estão bem mais preocupados com os resultados dos seus times no Campeonato Brasileiro ou na Libertadores. Inclusive, falamos do Flamengo versus Palmeiras no dia seguinte (o Palmeiras venceu).

Os jogadores da seleção brasileira tampouco são nossos ídolos. Não há mais Leônidas, Garrincha, Didi, Pelé, Tostão, Rivelino, Sócrates, Zico, Careca, Romário, Ronaldo, Ronaldinho e Rivaldo. Talvez Neymar, mas é apenas um. Não dá mais água na boca escalar a seleção brasileira. Perdeu a graça.

Quem se importará, no fundo, se o Brasil ganhará a Copa América ou não? Quem ficará de mau humor no dia seguinte se o Brasil for eliminado? Quem sairá às ruas celebrando se formos campeões?

Simplesmente, ao longo das últimas décadas, o futebol brasileiro foi assassinado. Nossa marca foi para o lixo. Viramos aquelas Mercedes Benz velhas dos anos 1980 que viram táxis no Cairo, Damasco ou Amã. Nossa seleção é uma espécie de Hard Rock Café do futebol – algo ultrapassado e até cafona. Nossa seleção é aquele boxeador ex-campeão quarentão que ainda luta em cassinos caindo aos pedaços em Atlantic City para ganhar um dinheiro. Somos aquela banda decadente que vive de um hit nos anos 1980.  Nem vintage nós viramos.

Duvido que hoje uma criança em Angola, na Turquia ou no Japão cresça admirada pelo futebol brasileiro. Nosso último sopro foi com Ronaldinho em 2006. Já faz dez anos. Quem nasceu de lá para cá nunca viu o Brasil jogar bola. Há dez anos, somos apenas Neymar.

Coutinho, Douglas Costa, Daniel Alves e outros são ótimos jogadores. Mas juntos, com esta CBF, simplesmente formam um time comum. Não somos mais do que o Chile ou o Uruguai e certamente somos menos do que a Argentina e muito menos do que a Alemanha. Ninguém teme mais o Brasil.

Não sei quando e se a seleção brasileira irá se reerguer. Mas nem mesmo termos sofrido a mais humilhante goleada da história das Copas do Mundo serviu para a CBF acordar. Nem mesmo a prisão do presidente desta entidade por autoridades americanas. Sério, é grotesco e patético ver o que fizeram com nosso futebol e com nossas memórias de torcedores da seleção brasileira.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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