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Quem apoia a queda de Morsy no Egito deveria apoiar permanência de Assad na Síria

gustavochacra

05 de julho de 2013 | 09h12

Se você acha que o islã político não tem espaço em uma democracia e defende a queda de Mohammad Morsy no Egito porque a Irmandade não respeitou as liberdades democráticas, então deveria defender a permanência de Bashar al Assad no poder na Síria.

Sei que vocês apresentarão o argumento de que os militares no Egito não mataram como o regime de Assad. Verdade. Mas, antes da guerra civil síria, o líder do regime em Damasco não era diferente de Hosni Mubarak, que comandava o governo apoiado pelos militares no Cairo. Eram duas ditaduras. Os militares egípcios tampouco enfrentaram uma oposição armada e terrorista, em alguns casos (os EUA consideram a Frente Nusrah, da oposição síria e ligada a Al Qaeda, como um grupo terrorista). A diferença, por incrível que pareça, é que as minorias religiosas, como os cristãos, viviam melhor na Síria do que no Egito, onde eles criavam porcos nos lixões.

Agora podem me dizer que a deposição de Morsy foi apoiada por milhões de egípcios nas ruas e contou com a simpatia de membros da sociedade civil e também de cristãos. Sem dúvida. Lembro que não é diferente da Síria. Assad tem o apoio de todas as lideranças cristãs do país, dos principais clérigos muçulmanos, de milhões de pessoas e também de uma série de integrantes da sociedade civil.

Ainda daria para apresentar um terceiro argumento. A oposição síria teria apoio popular. Tem sim. Mas talvez menor, proporcionalmente, do que a Irmandade. E, convenhamos, Morsy venceu eleições presidenciais. Além disso, os rebeldes anti-Assad na Síria matam cristãos e alauítas como se fossem andorinhas, incluindo autoridades religiosas. A Irmandade claramente não beneficiou os cristãos (assim como os militares e Mubarak), mas não cometeu massacres como os opositores sírios.

Está bom, existe a questão sectária e a Síria é o palco de uma guerra “de xiitas contra sunitas”. Primeiro, isso é errado. São raros os xiitas na Síria e não chegam a 3%. Tampouco integram o alto escalão do regime. “Ah, mas os alauítas são xiitas”. Não são. Se fossem, seriam chamados de xiitas, não de alauítas. Basta fazer uma pesquisa básica na internet para ver as diferenças.

O regime de Assad tem alauítas (e cristãos) no comando das forças militares. Mas a parte política é repleta de sunitas seculares do partido Baath. Muitos sunitas não religiosos estão ao lado do líder sírio e temem a religiosidade da oposição síria. Exatamente como acontece no Cairo em relação aos militares (que são sunitas, mas seculares) e a Irmandade, que é religiosa.

Enfim, acho a administração de Barack Obama, depois de ver o sucedido no Egito, deveria pensar muitas vezes antes de apoiar a oposição síria militarmente. Tenham certeza de que eles são bem piores do que a Irmandade Muçulmana, embora Assad também seja pior do que o novo governo egípcio.

No Oriente Médio de hoje, entre os que podem exercer o poder, não há um lado ruim ou bom. Os dois são péssimos. Apenas lembrem que Assad seria o equivalente dos militares egípcios e do Fatah palestino. A oposição síria seria o equivalente da Irmandade e do Hamas. Qual vocês escolhem? O melhor, na minha opinião, é se manter neutro, como o presidente libanês, Michel Suleiman.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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