As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Quem é “Winton” e quem é “Mengele” em 2015?

gustavochacra

06 de julho de 2015 | 10h24

Morreu aos 106 anos na semana passada Nicholas Winton, um dos maiores heróis do século 20, embora ele não gostasse de receber esta classificação. No início da Segunda Guerra, ele largou seu trabalho no mercado financeiro em Londres e rumou para a Tchecoslováquia, onde montou uma mega operação para salvar centenas de crianças.

Ao todo, graças a Winton, 669 crianças sobreviveram e não foram mortas no Holocausto. Ele conseguiu usar oito trens para salvá – las. Hoje há 6.000 descentes destas crianças, que não existiriam se não fosse este herói britânico. Um nono trem, que levava outras 250 crianças foi interceptado pelos nazistas. Provavelmente, elas foram mortas nos campos de concentração.

Infelizmente, milhões de pessoas nos dias atuais ainda precisam fugir de guerras ou perseguições pelo simples fato de serem de uma religião. São xiitas, yazidis e cristãos em Mossul, muçulmanos em Myanmar e na República Centro-Africana, cristãos na Nigéria, além de diferentes etnias em guerras étnicas no Sudão do Sul. Judeus também tiveram de deixar países como o Egito e o Yemen em um passado recente. Hoje, um judeu de quipá correria o risco de ser linchado no Cairo, apesar de o regime egípcio ser o maior aliado de Israel no mundo junto com o Canadá.

Há, claro, muitos heróis anônimos que nem ficamos sabendo da existência. Certamente, famílias sunitas estão ajudando a esconder famílias alauítas, xiitas e cristãs em Raaqa, na Síria. Pessoas deixaram suas casas em Beirute, Nova York, Paris e Tóquio para ajudar vítimas da guerra em Homs.

Temos de celebrar estes heróis e tê-los como exemplos. Sem dúvida, em contexto de guerras, temos de comentar sobre terroristas, como os do ISIS, também conhecido como Estado Islâmico e Daesh, ou do nazista Josef Mengele. Mas há muitos “Wintons” e “Schindlers” também.

Infelizmente, no mundo, ainda há aqueles propagam ideologias extremistas. Basta ver a intolerância do ISIS e do Hamas. Basta ver o crescente antissemitismo e islamofobia na Europa. Basta ver o atentado terrorista cometido por um  supremacista branco contra uma Igreja de negros em Charleston, na Carolina do Sul. Ou o atentado contra jovens estudantes de odontologia muçulmanos na Virgínia.

O Brasil não está imune. Nas eleições, vimos os ataques aos nordestinos. Sabemos histórias de agressões a homossexuais. Amigas minhas muçulmanas são xingadas na rua por usarem o véu. Comediantes fazem piadas antissemitas. E, na semana passada, tivemos os ataques racistas nas redes sociais à Maria Julia Coutinho, da TV Globo.

Redes sociais como o Facebook e o Twitter têm dado espaço à intolerância. Tenho um blog de política internacional no qual eventualmente sou obrigado a ler comentários de leitores claramente antissemitas ou islamofóbicos. Winton ficaria chocado se os lesse. Uma pena.