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Quem sucederá Mubarak, o atual presidente “vitalício” do Egito

gustavochacra

29 de março de 2009 | 06h07

O mandato do presidente do Egito dura seis anos. É o que diz a Constituição do país. Como não há limite para as reeleições, a mesma pessoa pode concorrer ao cargo indefinidamente e, em geral, o presidente permanece no cargo até morrer, quando seu vice assume. Tem sido assim desde que Gamal Abdel Nasser derrubou a monarquia, em 1952. O atual presidente, Hosni Mubarak, está no poder desde 1981. Como não designou um vice, não há, legalmente, um sucessor.

Essa indefinição torna difícil prever o futuro do Egito, onde o crescimento da Irmandade Muçulmana representa um ameaça ao poder laico, mantido com a ajuda das Forças Armadas. Octogenário, Mubarak trabalha para emplacar o próprio filho, Gamal Mubarak, como sucessor.

Com um inglês impecável e sólida carreira na área financeira, Gamal alteraria o atual sistema de poder no Egito – não chegaria ao poder por ser vice-presidente e nem por ser militar, como foi o caso de Anuar Sadat, vice de Nasser, e do próprio Mubarak, que além de vice-presidente era marechal da Força Aérea quando Sadat foi morto, em 1981. Com Gamal, seria inaugurado o que vem sendo chamado de “via síria”.

O problema é que os egípcios são traumatizados com monarquias hereditárias – ou qualquer arranjo que lembre esse sistema – desde os tempos do rei Farouk, deposto por Nasser. Para complicar, afirma Holger Albrecht, professor da Universidade Americana do Cairo, o regime sírio tem como base uma minoria alauita e, no Egito, o sistema é sustentado pelos militares. “Depois da morte de Mubarak, nada garante que Gamal será forte o suficiente para assumir o poder”, diz Albrecht.

Correndo por fora, segundo analistas, está Omar Suleiman, chefe do serviço de inteligência. “O Egito tem sido governado por militares há 57 anos e as Forças Armadas ainda acreditam que um de seus homens precisa estar no comando para garantir a segurança e a estabilidade do país”, diz Hani Sabra, especialista em Egito da consultoria de risco Eurásia.

Para ele, Gamal deve torcer para que seu pai o indique como sucessor o quanto antes. “Se acontecer algo com Mubarak no curto prazo, Suleiman será o novo presidente”, afirma.

Fora do círculo de Mubarak sempre se fala na possibilidade de a Irmandade Muçulmana ou opositores laicos, como Ayman Noor, assumirem o poder. Noor obteve 7,6% na última eleição presidencial, em 2005. Apesar de simbolizar a resistência contra o poder de Mubarak, porém, só é conhecido entre a classe média e a elite do Cairo e de Alexandria.

Já a Irmandade Muçulmana sempre foi vista como a principal ameaça ao regime egípcio. “Eles são o grupo mais popular do país”, afirma Albrecht. A organização controla sindicatos, como o dos médicos e o dos engenheiros. Apesar de estar banida da política, 88 de seus membros foram eleitos para o Parlamento em 2005, disputando como independentes.

A Irmandade Muçulmana é acusada de radicalismo por muitos críticos no Ocidente que enxergam na organização o risco de o Egito tornar-se um Estado islâmico como a Arábia Saudita ou o Irã.

Albrecht discorda. “O grupo é composto por profissionais liberais, e não clérigos, como no Irã. Eles não são a favor de restringir os direitos da mulher, como na Arábia Saudita. É uma organização heterogênea, com radicais e moderados, jovens, velhos, ricos e pobres.”

Bruce Rutherford, autor do livro Egypt After Mubarak (“O Egito Depois de Mubarak”, em tradução livre), diz que diferentemente do Taleban, no Afeganistão, e dos wahabitas, na Arábia Saudita, a Irmandade Muçulmana não tem interesse em estabelecer no Egito um Estado islâmico que não leve em conta os avanços da modernidade.

Muitos analistas também afirmam que o grupo não está preparado para tomar o poder agora. “Eles têm uma estratégia de longo prazo, não buscam uma revolta violenta”, afirma Sabra, da Eurásia. “Não há a menor possibilidade de uma resistência armada porque eles seriam esmagados. Estão felizes ao ganhar popularidade aos poucos.”

O professor Yair Evron, da Universidade de Tel-Aviv, lembra ainda que a maior parte da elite que detém o poder no Egito é contra a Irmandade Muçulmana. “Sem esse apoio, é difícil chegar ao poder”, diz.

Reportagem que escrevi e foi publicada na edição impressa de o “O Estado de S. Paulo” de hoje

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