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Quer entender como funciona o ISIS? Então leia este post

gustavochacra

16 de novembro de 2015 | 12h42

Onde está o ISIS?

O ISIS, responsável pelos recentes ataques terroristas em Paris, Beirute e contra um avião russo nos céus egípcios, domina hoje porções do território sírio e do iraquiano. No caso da Síria, esta organização também conhecida como Grupo Estado Islâmico ou Daesh, se concentra principalmente perto da fronteira do Iraque e tem como capital Raqaa, que não estava entre as dez maiores cidades sírias antes da guerra. No Iraque, o grupo controla as regiões majoritariamente sunitas do país, incluindo Mossul, a segunda maior cidade iraquiana. Há também grupos inspirados pelo ISIS atuando na Líbia, no Yemen, no Afeganistão e no Sinai (Egito) e células em dezenas de países ao redor do mundo.

Como está a Guerra contra o ISIS?

O grupo parou de avançar no Iraque e na Síria. Mas não tem perdido muito território. Basicamente, perdeu o fôlego do ano passado, mas isso foi insuficiente para derrotá-lo. Há algumas derrotas pontuais, como em Sinjar, mas esta cidade iraquiana não é estratégica, tendo somente uma importância simbólica para a religião Yazidi. E há duas coalizões lutando contra o ISIS – uma comandada pelos EUA e outra pela Rússia e pelo Irã. A maior parte das pessoas em terra que lutam contra o ISIS é formada por muçulmanos. E as maiores vítimas do grupo também são muçulmanas.

E como o ISIS mudou nas últimas semanas?

Até pouco tempo atrás, o ISIS concentrava as suas ações na Síria e no Iraque. Lobos solitários inspirados pelo grupo cometiam atentados de pequenas proporções em outras partes do mundo. Mas, nas últimas semanas, o grupo passou a agir como a Al Qaeda de uma década atrás, realizando mega atentados, como a explosão do avião russo no Sinai, os dois suicidas em Beirute e os múltiplos ataques em Paris.

Como o ISIS surgiu?

O ISIS é derivado da Al Qaeda no Iraque, uma organização que surgiu durante a invasão americana para derrubar Saddam Hussein. Há cerca de cinco anos, estava bem enfraquecida, depois do surge americano e da parceria das forças americanas com tribos sunitas. Mas o grupo aproveitou o caos da Guerra da Síria para se reerguer no país vizinho, lutando contra o regime de Bashar al Assad. No caso, entrou em choque com o comando central da Al Qaeda, que considerava a Frente Nusrah sua representante na Síria. O Grupo adotou então o nome de Estado Islâmico no Iraque e na Síria e, posteriormente, Estado Islâmico. Daesh é a sigla em árabe; ISIS, em inglês.

Quem está por trás do ISIS?

Hoje, não há nenhuma nação que apoie o ISIS. Mas, no começo, alguns serviços de inteligência de países árabes no Golfo ajudaram indiretamente esta organização para lutar contra Assad. Mas perderam o controle.

Quem são os membros do ISIS?

Há pessoas de múltiplas nacionalidades. Seus membros vêm da França, da Tchetchênia, da Líbia, do Afeganistão e de outras dezenas de países. Claro, há sírios e iraquianos. No caso dos iraquianos, há uma curiosidade. Alguns dos líderes são antigos membros do regime de Saddam Hussein, que lutavam justamente contra o radicalismo islâmico, mas se radicalizaram ao serem colocados em prisões junto com jihadistas.

Como o ISIS se sustenta?

O ISIS se sustenta por meio da extorsão, cobrando impostos nas áreas que controla; do roubo, ao controlar todo o dinheiro vivo de bancos de cidades que tomou, como Mossul; de petróleo, contrabandeado para países na área; e do tráfico de armas

 Quem são os aliados do ISIS?

O ISIS não tem aliados

Quem são os inimigos do ISIS?

Os maiores inimigos do ISIS são o regime de Bashar al Assad, os xiitas do Iraque, incluindo o governo em Bagdá, os curdos, o Irã, o Hezbollah, a Rússia e alguns países ocidentais, como os EUA e a França. Mas os países árabes são também vistos como adversários, assim como a Al Qaeda e grupos rebeldes opositores sírios. Algumas nações como a Arábia Saudita e a Turquia também são inimigas, mas possuem uma relação mais ambígua com a organização.

 Qual a ideologia por trás do ISIS?

O ISIS é um grupo jihadista que segue a vertente wahabbita do islamismo, difundida pela Arábia Saudita, embora os sauditas sejam, oficialmente inimigos deles. A Al Qaeda, o Taleban, o Boko Haram e o Al Shabab também seguem a vertente wahabbita. Noto que os wahabbitas não são majoritários entre os muçulmanos, sendo historicamente concentrados ao redor de Riad. São apenas um dos braços do islamismo sunita – há outros bem moderados e há também muçulmanos que não são sunitas, como os xiitas. E também não são todos wahabbitas que são jihadistas. Longe disso. Mas uma parte deles se torna jihadista e este movimento é crescente. Esta distinção é importante, para não haver generalizações que contribuem para equívocos como dizer que todo muçulmano é terrorista. Vou me aprofundar mais nisso em outro post.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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