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Rainha Rania luta contra islamofobia enquanto seu país tem preconceito contra sulamericanos

gustavochacra

27 de março de 2009 | 17h54

Um amigo meu iraniano disse certa vez que me invejava. “Toda vez que você diz ser do Brasil, as pessoas sorriem. Imagine ter que responder que é do Irã?”. Realmente, concordo com ele. Ser brasileiro abre portas. Em quase todos os países por onde passei, sempre vi uma feição de entusiasmo ao checarem o meu passaporte. Claro, houve o episódio israelense. Mas, naquele caso, o problema era a quantidade vistos árabes e meus avós serem libaneses.

Hoje, em Amã, imaginei que seria tão simples entrar quanto foi no Egito ou na Turquia. Desembarquei, troquei dinheiro pela valorizada moeda jordaniana e fui para o balcão onde se compra o visto. Americanos, suíços, japoneses e ingleses estavam na minha frente. Todos davam o passaporte, o dinheiro do pagamento, um homem recebia e o outro, do lado, já servia como imigração. Fiz o mesmo. Dei meu passaporte. Mas ele travou. O homem conversava ao telefone dizendo que estava com um passaporte brasileiro nas mãos. Estranhei. As pessoas atrás de mim na fila continuavam pegando o visto em menos de 30 segundos. E eu há quinze minutos ali, aguardando. Reclamei. O homem disse para eu esperar. Até que chegou um cidadão de bigodinho e me pediu para acompanhá-lo. Queria me revistar e interrogar.

Jordaniano – De onde você vem?
Eu – Do Cairo.
Jordaniano – É a primeira vez na Jordânia?
Eu – Terceira
Jordaniano – Quantos dias você vai ficar?
Eu – Poucos, menos de uma semana. Mas qual o problema comigo? Por que todos os turistas passaram diretamente e eu estou sendo interrogado? É por que sou jornalista? (nota – ele tem como saber isso porque está escrito no meu visto sírio a palavra sahaf, que quer dizer jornalista em árabe)
Jordaniano – O problema é que você vem da América do Sul. Fazemos o mesmo com quem é do México, Venezuela, Argentina e Brasil.
Eu – O México não é na América do Sul. Mas qual o problema dos nossos países?
Jordaniano – Vocês podem ser traficantes de droga, de cocaína
Eu – Você está insinuando que apenas pelo fato de eu ser brasileiro há a suspeita de que seja traficante? Isso é preconceito.
Jordaniano – São ordens e tenho que respeitá-las.
Eu – Mas você não pensou que a Jordânia está agindo da mesma forma que os países que barram árabes por causa do estereótipo de terrorista? Vocês estão fazendo a mesma coisa. Isso é racismo. Uma vergonha.
Jordaniano – Não sei o que fazem nos outros países. Aqui, nós revistamos pessoas que chegam da América do Sul.
Eu – Eu não vim da América do Sul. Estava no Egito.
Jordaniano – Mas estava antes.
Eu – Antes do Egito eu estava na Turquia. E antes Nova York, Tel Aviv, Gaza.
Jordaniano – Você é brasileiro. Prendemos todas as semanas várias pessoas do seu país que chegam aqui com droga.
Eu – Isso não é verdade. Nunca escutei histórias a respeito. Podem haver casos isolados. Mas duvido que seja tão comum.
Jordaniano – Acredite
Eu – Acho lamentável a sua rainha ir ao YouTube tentar defender os muçulmanos, buscando corretamente eliminar a imagem de terrorista atrelada a esta religião, enquanto o país governado pelo marido dela age com preconceito. Ela reclama do tratamento que os muçulmanos recebem no Ocidente, mas o rei Abdullah trata os sulamericanos desta forma aqui na Jordânia. Você barraria o Ronaldo, o Kaká?
Jordaniano – Se viessem da América do Sul, eles também seriam revistados.
Eu – Isso é preconceito

Terminou a revista, ele pediu desculpas e não parava de dizer que eu era bem vindo à Jordânia. Quem sabe, se meu passaporte fosse britânico. Claro, não descarto a possibilidade de terem me revistado e interrogado porque sou jovem ou jornalista. O problema é que o oficial jordaniano deixou claro que o motivo não era a minha idade ou profissão, mas a minha nacionalidade.

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