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Regime de Assad usará atentados como propaganda interna contra a oposição

gustavochacra

17 de março de 2012 | 12h24

 no twitter @gugachacra

A imagem externa do regime sírio está definitivamente condenada. Será para sempre comparado à Argentina da Guerra Suja, à Nicarágua de Somoza e ao Iraque de Saddam Hussein. Internamente, porém, Bashar al Assad ainda disputa uma guerra de propaganda com a oposição. E, atentados como o de ontem, se encaixam perfeitamente na sua narrativa de que os opositores são terroristas.

Nas TVs de Damasco e Aleppo, hoje, a população está horrorizada com as cenas dos atentados, não com os massacres do regime em Homs e Idlib. Estas cidades estão distantes do cotidiano deles. Para efeito de comparação, imagine a diferença entre um ataque terrorista no centro de São Paulo, e ações da polícia do Rio nas favelas cariocas. Para um paulistano, na média, o primeiro caso é bem mais próximo, especialmente se exibido continuamente na Adunia, a rede de TV estatal com uma audiência similar à da rede Globo no Brasil.

Obviamente, estes terroristas não representam os opositores, apesar de compartilharem do ideal de combater o regime. Isto é, entre os defensores da queda de Assad, estão pessoas genuinamente pró-democracia e, como não poderia deixar de ser, grupos com interesses suspeitos que se aproveitam dos levantes para impor a sua agenda.

Mais uma vez, comparando ao Brasil, lembrem que nos anos 1960 e 70 muita gente lutou contra a ditadura, incluindo figuras democráticas, como Ulisses Guimarães e Fernando Henrique Cardoso. Mas havia outros que tentavam estabelecer um regime comunista nos moldes cubanos e usavam a guerrilha como arma.

Hoje, na Síria, em vez de pregar o medo dos “comunistas”, o regime prega o medo dos “islamistas”. Em vez de temer virar “Cuba”, Assad diz que o risco é virar uma “Arábia Saudita”. Para a elite e a classe média síria, especialmente a cristã e alauíta, não há nada mais repugnante do que o regime saudita – nem mesmo um regime como o de Damasco, que já matou 8 mil pessoas, incluindo centenas ou até mesmo milhares de mulheres e crianças.

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” e do portal estadão.com.br em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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