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Regime iraniano, que difundiu ação suicida, vira vítima de sua própria arma

gustavochacra

20 de outubro de 2009 | 11h25

Ao ver a sua Guarda Revolucionária ser atacada pelo grupo sunita Jundallah, o Irã acabou vítima neste fim de semana da estratégia de ataques suicidas adotada e difundida pelo regime xiita depois da Revolução Islâmica de 1979. O golpe foi duro para um governo que sempre prezou o martírio e o apoiou na guerra contra o Iraque (1980-1988) e também, via Hezbollah, durante a guerra civil libanesa, na mesma década.

O uso de suicidas como arma não foi utilizado por séculos entre os muçulmanos. Nenhum islâmico se explodiu durante os primeiros 80 anos do século 20 nas várias guerras e ocupações que proliferaram no Oriente Médio. Soldados britânicos e franceses não foram mortos quando controlavam a maior parte do território até a 2ª Guerra. Israel tampouco sofreu com ações suicidas nas suas quatro guerras contra países árabes.

Tudo começou a mudar em 1981, quando membros de uma organização xiita libanesa, com o apoio do Irã, se explodiram diante da Embaixada do Iraque em Beirute. No ano seguinte, milicianos iranianos invadiam as linhas de combate iraquianas em ondas humanas para explodir minas e verificar as posições das forças de Saddam Hussein, sabendo que iriam morrer nesta ação. O Hezbollah é acusado de estar por trás dos atentados contra a Embaixada dos EUA e contra o quartel dos Marines em Beirute, em dois episódios separados em 1983, que deixaram mais de 300 americanos mortos.

Nenhum grupo sunita em todo o mundo havia realizado um atentado suicida até os anos 90. O primeiro caso de um palestino a se matar para alvejar israelenses ocorreu em 1993. O pioneiro foi um membro do Hamas. A Organização para a Libertação da Palestina (OLP) não usava esse método, preferindo o sequestro de aviões ou de pessoas, como nas Olimpíadas de Munique, em 1972. A Al-Qaeda também copiou os iranianos, seus inimigos, sendo responsável pelo 11 de Setembro, considerado o maior ataque suicida de todos os tempos.

Ironicamente, a primeira mulher a cometer um atentado suicida no Oriente Médio não pertencia a um grupo islâmico. A responsável – uma libanesa que integrava um partido socialista – se explodiu para matar dois soldados israelenses que faziam parte das forças de ocupação no Líbano em 1985. Robert Pape, professor da Universidade de Chicago, que compilou todos os atentados suicidas ocorridos desde 1980 no mundo, lembra que, no Líbano, os ataques suicidas não eram restritos aos muçulmanos. Dos 41 ataques ocorridos no país na década de 80, 27 foram realizados por comunistas e socialistas, três por cristãos independentes e apenas oito por radicais islâmicos – os demais não estão claros.

Pape afirma ainda que o grupo Tigres Tâmil, que atuava no Sri Lanka, não é muçulmano e tem cunho secular, detinha o recorde de atentados suicidas na história até a eclosão da Guerra do Iraque, quando Al-Qaeda o superou. O grupo asiático também criou a veste dos suicidas, utilizada hoje por diversas organizações.

Segundo Pape, os ataques ocorrem quando há ocupação estrangeira. No Líbano, os ataques pararam depois da saída de Israel. A Al-Qaeda começou a atacar após de os EUA estacionarem suas tropas na Arábia Saudita. Iraquianos tampouco se matavam antes de 2003. “Em 95% dos incidentes eram habitantes de áreas que lutavam contra uma ocupação estrangeira”, afirma Pape no seu livro. O de ontem, no Irã, não se encaixa neste perfil.

Outros dados curiosos sobre os atentados suicidas são – o Hezbollah nunca cometeu um ataque deste tipo dentro de Israel; jihadistas jamais realizaram ações suicidas contra os soviéticos no Afeganistão; nenhum iraquiano participou do 11 de Setembro; não há registros de sírios ou iranianos envolvidos em ataques suicidas na Guerra do Iraque.

Reportagem publicada hoje na edição impressa do jornal

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