Autoridade única do Hamas pode complicar pós-guerra na Faixa de Gaza
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Autoridade única do Hamas pode complicar pós-guerra na Faixa de Gaza

gustavochacra

27 de janeiro de 2009 | 07h13

O pós-guerra na Faixa de Gaza será bem mais complicado do que no sul do Líbano, mas apenas no curto e médio prazo. Talvez, no longo, pode ser vantajoso – se olharmos pelo lado positivo. Ontem escrevi em termos de destruição. Hoje falarei das questões políticas. O território palestino tem apenas uma autoridade – o Hamas. Não existem forças de paz da ONU no território, o cessar-fogo não foi decorrente de uma resolução do Conselho de Segurança e as fronteiras estão fechadas.

O Líbano era diferente. O Hezbollah fazia parte do governo na época da guerra. Porém o grupo era uma força minoritária. O poder é dividido de forma sectária entre os libaneses. O presidente é cristão maronita, o premiê muçulmano sunita e o presidente do Parlamento muçulmano xiita. Os ministérios e o Parlamento também são divididos entre as 18 facções religiosas libanesas e os cristãos são sempre favorecidos. O Hezbollah entra apenas na cota dos xiitas, onde ainda tem que dividir os postos com o grupo mais secular Amal. Portanto, a organização libanesa que entrou em conflito com Israel possuía apenas um poder marginal no governo libanês.

Em segundo lugar, antes mesmo da guerra, a ONU já mantinha forças de paz no território – a UNIFIL. Com o fim do conflito, bastou reforçar estas tropas amparadas por uma nova resolução das Nações Unidas. A fronteira entre o Líbano e Israel pode ser facilmente incrementada com o Exérito e os capacetes azuis.

Em Gaza não existe nada disso. O governo local é controlado inteiramente pelo Hamas. Não existem tropas da ONU e a resolução não foi aceita pelo grupo e tampouco por Israel. Desta forma, fica complicado qualquer acordo que passe por cima do Hamas. No curto e no médio prazo, tudo precisará sair da estaca zero. Não será algo imediato como no Líbano.

No longo prazo, porém, o cenário pode ser mais positivo para os palestinos do que foi para os libaneses. A divisão sectária levou a um racha no longo prazo. Diversos setores da sociedade libanesa culparam o Hezbollah pelo conflito. O grupo deixou o governo e, junto com seus aliados cristãos, ocupou o centro de Beirute. O Parlamento ficou inativo por mais de um ano. O Líbano não teve presidente por meses. Se antes da guerra havia união, depois houve divisão – que quase culminou em uma nova guerra civil em maio de 2008, mas hoje os dois lados estão novamente em um governo de união nacional até as eleições de junho.

Entre os palestino, ocorre o oposto. Antes da guerra, havia divisão entre o Fatah e o Hamas. O discurso do pós-guerra é de tentativa de união. Há inúmeros entraves que abordarei em posts no futuro. Por outro lado, esta é a previsão otimista. A pessimista, que ouvi na Cisjordânia nas últimas semanas, é a de que o Hamas estaria apenas esperando a oportunidade de tomar cidades como Nablus e Hebron. O Fatah teria a sua republiqueta em Ramallah.

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