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Resumo blogueiro do colapso das negociações Israel-Palestina e do acordo Fatah-Hamas

gustavochacra

29 de abril de 2014 | 17h12

Quem foi o responsável pelas negociações de paz entrarem em colapso? Primeiro, precisamos diferenciar o “acordo final” do “processo”. Para o primeiro, seriam definidas as fronteiras do futuro Estado palestino, o status final de Jerusalém, o futuro dos assentamentos e a questão dos refugiados. O segundo é o que cada lado deve fazer enquanto não se chega a um acordo final.

No “processo” os palestinos se comprometeram a não aderir a entidades da ONU. Esta exigência israelense se deve a dois fatores. Primeiro, não seguir pela via unilateral no estabelecimento do Estado palestino. Em segundo lugar, pelo temor de a Palestina levar Israel para o Tribunal Penal Internacional pela ocupação da Cisjordânia, reconhecida pelas Nações Unidas como parte da Palestina. Israel, em troca, durante o processo, se comprometeu a libertar centenas de prisioneiros palestinos, muitos deles envolvidos em terrorismo, em quatro levas.

Conforme o New York Times descreve em reportagem hoje, tudo seguia bem até 5 de novembro. Os palestinos cumpriam a sua parte e Israel libertou a segunda leva de prisioneiros. O problema é que, neste momento, o governo de Benjamin Netanyahu, pressionado internamente por uma coalizão com integrantes contrários às negociações com os palestinos, autorizou a construção de 20 mil unidades habitacionais em assentamentos na Cisjordânia. A argumento israelense era de que as construções seriam o preço pela libertação, embora o acordo, segundo os EUA, era a Palestina não aderir a órgãos internacionais. O secretário de Estado, John Kerry, criticou duramente a postura de Israel. Ainda assim, as negociações prosseguiram.

No dia 29 de março, Israel deveria ter libertado a última leva de prisioneiros. Os palestinos exigiram que árabes-israelenses fossem incluídos entre os libertados e disseram que Kerry teria feito esta promessa a eles. Israel disse que estes eram cidadãos israelenses e, portanto, não seriam incluídos, mesmo porque eles (israelenses) não tinham coordenado nada com o secretário de Estado. Kerry tentou contornar a situação ao especular sobre a possibilidade de soltar o espião israelense Jonathan Pollard, preso nos EUA.

Mas Israel, no dia 1 de abril, além de não soltar os prisioneiros devido ao impasse envolvendo os árabes-israelenses, anunciou a construção de 700 novas unidades habitacionais em Jerusalém oriental, reivindicada pelos palestinos como capital de seu futuro Estado – Israel considera a cidade indivisível. Este teria sido o momento “poof”, na palavras de Kerry, quando o acordo entrou em colapso. No dia seguinte, os palestinos anunciaram a adesão a 15 tratados e entidades da ONU, a maior parte delas ligadas a direitos humanos, em ação elogiada pelo Human Rights Watch. Israel, em resposta, anunciou o congelamento das libertações de prisioneiros palestinos, embora já tivesse de tê-los libertado dias antes.

Kerry ainda tentou salvar o acordo. Mas Abbas decidiu que a melhor alternativa seria fazer um pacto com o Hamas. O próprio chanceler israelense, Avigdor Lieberman, havia afirmado diversas vezes que Abbas não controlava Gaza e, portanto, não valeria a pena fazer um acordo com ele.

Para controlar Gaza, Abbas possuía três opções. Primeiro, ceder ao Hamas e abdicar das negociações com Israel. Em segundo lugar, enfrentar militarmente o grupo. Mas isso seria impossível porque as forças da Autoridade Palestina estão na Cisjordânia e Israel não as autorizaria a cruzar seu território para enfrentar o Hamas em Gaza. E, terceiro, o Hamas ceder e aceitar as negociações. Foi justamente esta que ocorreu.

O governo israelense argumenta que o Hamas não abdicou do terrorismo e prega a destruição de Israel. Tem razão. Mas o Hamas não tem a capacidade de destruir Israel e já indiciou que aceitaria uma “trégua” com base nas fronteiras de 1967. Por outro lado, insiste no lançamento de foguetes contra o sul israelense, que, apesar não provocarem baixas, afetam a vida de dezenas de milhares de civis. E o terrorismo diminuiu mais por ações unilaterais de segurança de Israel do que por falta de intenção do grupo. E as concessões ocorreram porque o Hamas perdeu o fundamental apoio iraniano depois de trair Bashar al Assad na Síria e apoiar grupos opositores.

A Autoridade Palestina se defende dizendo que o Hamas, se ingressar na OLP, automaticamente reconheceria Israel. Mais importante, o Hamas não integraria o novo governo palestino, que terá viés tecnocrático, e Israel terá a segurança de possuir a paz com todos os palestinos se um acordo for firmado.

Para completar, Abbas, em um gesto em direção a Israel, afirmou que o Holocausto foi o maior crime da história moderna da humanidade. O governo israelense disse que este reconhecimento não significa muito se o presidente palestino fez um pacto com o Hamas, responsável por dezenas de atentados que mataram centenas de israelenses.

Este é o cenário. Quem vocês acham que foi o responsável pelo colapso do processo de paz desta vez? Kerry, secretário de Estado dos EUA, dá indicações claras de que foi Israel, chegando a dizer que o país pode virar um Apartheid se não houver acordo (voltou atrás na declaração depois) – o ex-premiê de Israel, Ehud Olmert, já deu declarações no mesmo sentido.

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Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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