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Sabia que 300 africanos desapareceram no mar tentando ir para Europa?

gustavochacra

12 de fevereiro de 2015 | 20h00

Nesta semana, cerca de 300 de refugiados de países da África subsaariana desapareceram no mar Mediterrâneo ao tentarem cruzar em barcos clandestinos da Líbia para a Europa. Cerca de 80 sobreviventes conseguiram chegar à ilha de Lampedusa, da Itália. Os demais provavelmente estão mortos, embora as buscas prossigam.

No ano passado, segundo a ONU, 218 mil pessoas cruzaram o Mediterrâneo nestes barcos clandestinos em direção à Europa. Centenas morreram na travessia. Milhares foram presos ao desembarcarem. São refugiados de guerras, refugiados de ditaduras ou pessoas tentando fugir da pobreza em busca do sonho na Europa. Não muito diferente das dezenas de milhares de latino-americanos, incluindo milhares de brasileiros, que cruzam a fronteira do México para os EUA.

São pessoas com sonhos de fazer a vida em outros países. Mas as nações não possuem capacidade de recebe-los – muitas vezes, no caso do Mediterrâneo, o porto de chegada é na Itália ou na Grécia, que enfrentam crises econômicas e não possuem postos de trabalho suficientes mesmo para seus habitantes.

É uma tragédia para humanidade, na qual a solução não seria simples. Sem dúvida, os traficantes de pessoas devem ser combatidos. Isso, inclusive, já ocorre. Mas não é o suficiente para impedir este movimento migratório. Afinal, não há condições de permanecer em certas áreas do Sudão, da Líbia ou do Congo.

Por exemplo, imagine se você morasse em Darfur com a sua família. Um dia, como aconteceu nas últimas semanas, de acordo com o Human Rights Watch, viessem soldados sudaneses e estuprassem 200 mulheres, incluindo a sua filha e a sua mulher. Matassem um de seus filhos. O que você faria? E chega um vizinho e diz que há um esquema para imigrar para a Europa, um lugar que sempre te encantou dos filmes? Você permaneceria em Darfur, podendo ser vítima de um genocídio esquecido pelo mundo, ou se arriscaria atravessando o Mediterrâneo?

Ao mesmo tempo, não há como a Itália e outros países europeus abrirem as portas para centenas de milhares de imigrantes. Existe um limite.

A saída, claro, estaria no desenvolvimento destas nações africanas, por meio da democracia, da liberdade, do fim das guerras. É difícil, mas lembro que japoneses cruzavam o mundo para buscar uma vida melhor no Brasil e alemães vinham para os EUA. Hoje, a não ser que sejam expatriados, dificilmente um japonês tentará imigrar para São Paulo ou um alemão para Detroit.


Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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