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Sanções ao Irã (e a qualquer país) não adiantam

gustavochacra

18 de janeiro de 2012 | 18h50

no twitter @gugachacra

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Escrevi ontem que Israel estava certo em relação à Síria. E hoje, mais uma vez, preciso escrever que os israelenses estão corretos em relação às sanções ao Irã. Conforme afirmou o premiê Benjamin Netanyahu, estas medidas contra a república islâmica não funcionarão.

Na verdade, sanções nunca funcionam. Todas as ditaduras da América Latina, menos a cubana, que sofre sanções há cinco décadas, foram removidas do poder nos anos 1980. Hosni Mubarak e Ben Ali acabaram derrubados sem sanções. Kadafi? Bom, só caiu porque teve bombardeio, assim como Saddam Hussein. O líder iraquiano sobreviveu a mais de uma década de sanções bem mais duras do que as aplicadas à Teerã. Bashar al Assad segue no poder há meses apesar de ser alvo duras medidas econômicas.

O atual plano americano prevê a imposição de sanções unilaterais a países ou empresas que fizerem negócios com o Banco Central do Irã. O objetivo é impedir que os iranianos consigam vender petróleo, já que todas as transações financeiras passam pela instituição.

Assim, China, Índia e Japão deixariam de comprar petróleo iraniano, na avaliação do Congresso do Irã. A administração de Obama não concorda com esta teoria e sabe das conseqüências para a economia americana, que luta para se recuperar. Mas, em ano eleitoral, o presidente tem medo de bater de frente em um tema delicado nos EUA. Afinal, insisto mais uma vez, no país, o Irã sempre é mau.

Teoricamente, se os iranianos saíssem do mercado pelas medidas americanas, a oferta de barris seria suplantada pela Arábia Saudita. Pode até ser. Os sauditas têm condições de colocar em até 90 dias no mercado o volume exportado por Teerã. Mas teria resultados negativos óbvios. Primeiro, Riad, que tem o governo mais radical do mundo e onde as mulheres são tratadas como animais (ou pior), aumentaria ainda mais seu poder sobre os EUA. Em segundo lugar, há questões logísticas do transporte e do refino.

Além disso, os iranianos são atores neste jogo. Vocês acham que eles ficariam quietos? Não ficariam. Primeiro, podem fazer o óbvio e continuar vendendo no mercado negro o petróleo com um desconto de 15%. Menos renda, mas ainda assim esta viria. Especialmente porque o preço do petróleo subiria e esta redução seria amenizada pelo aumento do valor do barril.

As transações seriam feitas por outras alternativas, incluindo, pasmém, pelo Banco Central do Iraque. Não se esqueçam dos esquemas de Saddam Hussein na época do “Petróleo por Comida” na ONU. Sempre existem atalhos.

Além disso, sem querer ser chato, o Irã poderia causar uma confusão no Estreito de Ormuz e em toda a região. O preço do petróleo dispararia e os EUA seriam afetados por suas próprias sanções econômicas. Por último, a China, a Índia e mesmo o Japão têm seus interesses nacionais. Para eles, a bomba iraniana não é o fim do mundo, mas o aumento no preço do petróleo pode trazer conseqüências graves. Um morador de Tóquio não vê Teerã da mesma forma que outro em Tel Aviv ou Manama.

Resumindo, sanções não adiantam. E a África do Sul? Foi mais o boicote esportivo e a transformação de um regime, que se achava desenvolvido e ocidental, em um pária do Ocidente.

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abs

Guga

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” e do portal estadão.com.br em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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