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São Paulo viveu em Damasco e Jerusalém, mas o Brasil é bem diferente da Síria e de Israel

gustavochacra

30 de dezembro de 2011 | 14h27

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No Brasil, tenho um amigo evangélico chamado José Wilson. Ele trabalha no clube Paulistano. Nas minhas visitas, ele sempre pergunta da Terra Santa. Desta vez, contei da minha viagem a Damasco em outubro e falamos de São Paulo, que foi curado de sua cegueira com a ajuda de Ananias na hoje capital da Síria, onde também estaria a tumba de São João Baptista.

Religioso, José Wiolson acha que a Bíblia traz a palavra de Deus. Tudo o que precisamos saber está no livro sagrado dos cristãos, diz ele. Perguntei então se os muçulmanos, judeus, ateus e membros de outras religiões estão errados. Além disso, acrescentei que os seguidores do islamismo e do judaísmo possuem uma visão de Cristo distinta da dele.

Na resposta, José Wilson insistiu que a Bíblia é o único lugar onde encontramos a palavra de Deus. No Brasil, estas diferenças de pensamento afetam pouco. Afinal, trata-se de uma nação majoritariamente cristã, dividida principalmente entre católicos e evangélicos. No futuro, poderemos sim ter choques entre laicos (católicos ou não) e religiosos (principalmente evangélicos), mas este momento ainda está distante. As minorias judaicas e islâmicas vivem bem, com seus direitos respeitados, e normalmente integrando as classes mais altas da sociedade.

No Oriente Médio, é diferente. O Líbano, por exemplo, é uma nação sem uma maioria religiosa. Cristãos maronitas, cristãos ortodoxos, muçulmanos sunitas, muçulmanos xiitas e druzos formam pluralidades. Naturalmente, o choque sectário tende a ser maior. O mesmo fenômeno pode ser observado também em países como a Bósnia e a Nigéria, que não têm nada de árabe.

Israel chama a atenção por ser o inverso da maior parte do Ocidente e do Oriente Médio, onde os judeus são minoria. Cidades como Tel Aviv são majoritariamente judaicas. Isso seria impensável no século 19. Imagina uma metrópole de primeiro mundo, mais avançada do que quase todas as capitais europeias, formada quase que integralmente por judeus? Este excepcionalismo israelense eleva as paixões dos dois lados. Muçulmanos e cristãos sempre viram os judeus como uma parcela pequena da população. Os judeus, por sua vez, passaram séculos tendo de se acomodar dentro de nações e impérios cristãos e muçulmanos que os perseguiam.

Já a Síria é um país onde as minorias governaram a maioria através do fortalecimento de uma identidade étnica. Alauítas e cristãos, para viverem em meio aos muçulmanos sunitas, sempre se identificaram como árabes e sírios. Assim, o governo era, até este ano, descrito como árabe, e não alauíta.

Nós brasileiros adoramos celebrar a nossa miscigenação. Dizemos que aqui judeus e árabes vivem bem. O problema é que, tirando o percentual mínimo de indígenas, todos temos antepassados que vieram do exterior. Alguns têm os pais ou avós nascidos no exterior. Outros estão aqui há gerações, como descendentes dos primeiros portugueses ou de escravos.

Preconceito existe. Vimos neste ano os ataques anti-semitas no episódio do metrô de Higienópolis. Agressões verbais contra árabes são comuns e eu mesmo já fui alvo de preconceito de alguns amigos com piadas infelizes sobre os libaneses e os árabes, equiparando-os a terroristas e bandidos (imagino que estas mesmas pessoas paguem para se internar no Einstein e no Sírio_Libanês para serem tratados por médicos árabes e judeus).

De qualquer forma, fica difícil comparar a identidade religiosa no Brasil com a do Oriente Médio. Aqueles cristãos sírios que eu falei acima são diferentes do José Wilson. Primeiro, são ortodoxos, assírios, melquitas e maronitas, não evangélicos e católicos romanos (os melquitas respeitam a autoridade papal, mas possuem um rito distinto e tem seu próprio patriarca). Muitos deles remontam suas famílias há gerações nesta região.

Em Malullah, Sednayah e Damasco, gravei pessoas rezando o Pai Nosso e o Ave Maria em aramaico, a língua de Cristo. Mostrei os vídeos para o José Wilson e seus colegas de trabalho Josias e Gonçalo, no Paulistano. Se nada for feito para protegê-los, em breve, não teremos mais cristãos nas terras onde surgiu o cristianismo. Não se esqueçam, a cidade de São Paulo (e próprio Paulistano) homenageiam Mar Boulus, Saulo, ou “São Paulo” em árabe. Boulus viveu em Damasco, na Síria.

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” e do portal estadão.com.br em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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