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São Paulo seria perseguido pelo ISIS e aliado de Assad se vivesse hoje?

gustavochacra

24 de fevereiro de 2015 | 18h04

Aos menos 90 cristãos assírios foram sequestrados pelo ISIS, também conhecido como Grupo Estado Islâmico e Daesh, em vilas rurais nos arredores de Hasaka, uma cidade síria controlada por curdos próxima da fronteira com o Iraque.

Por séculos, até 2011, os cristãos viveram bem na Síria. Mais recentemente, seguidores do cristianismo alcançaram cargos no alto escalão do regime de Bashar al Assad. Nas minhas viagens ao país, sempre me encantei com as igrejas nas ruelas de Bab Touma, a área cristã da cidade velha de Damasco, com seus cafés, hotéis boutiques, restaurantes e estudantes europeus.

A algumas dezenas de quilômetros de Damasco, havia as vilas de Saidnaya, com seus monastérios. Em 2011, visitei esta vila, entrevistando freiras. Não longe dali, ganhei um dicionário aramaico-espanhol na vila de Maaloula. São dos raros lugares onde ainda se fala aramaico.

Os cristãos sírios são majoritariamente ortodoxos. Estes sempre estiveram na vanguarda do arabismo. No país, também vivem minorias cristãs maronita, majoritária no Líbano, e melquita. Mas também há outros cristãos não árabes, como os assírios e os armênios, que foram recebidos pelos sírios em Aleppo e Damasco quando precisaram fugir do genocídio cometido pelos otomanos. Os imigrantes de origem síria do Brasil são, normalmente, de Homs. Esta cidade não fica muito distante da fronteira com o Líbano. Culturalmente eles lembram muito os libaneses do Vale do Beqaa.

Na atual Guerra da Síria, os cristãos, em sua maioria, embora não na totalidade, apoiam o regime de Assad, um líder laico, embora muçulmano alauíta de nascimento. Morrem de medo dos rebeldes da oposição, que restringem suas liberdades. Isso não significa que os cristãos não defendam a democracia. Como muitos sírios, independentemente da religião, eles adorariam viver em um Estado democrático. Mas a opção que eles têm, hoje, não envolve esta possibilidade. Eles precisam escolher entre o regime de Assad, no qual podem frequentar a Igreja, beber e se vestir como quiserem, ou o extremismo em nome de um islã deturpado do ISIS, da Frente Nusrah (Al Qaeda na Síria), do Jaysh al Islam ou da Frente Islâmica.

Como muitos aqui sabem, tenho origem cristã libanesa. Meu avô paterno era cristão ortodoxo; minha avó, cristã melquita. A situação dos cristãos no mundo árabe sempre me preocupou. Temo que um dia cidades como Aleppo, Damasco, Bagdá e Alexandria não tenham mais cristãos, assim como não têm mais judeus. Sobraria apenas Beirute.

Aqui no meu prédio em Nova York, vivem três senhoras cristãs libanesas. São algumas dos milhões de libaneses da Diáspora. Uma delas me disse ontem – “Não gosto do Assad, mas ele protege os cristãos”. Este sentimento, ainda que não seja um consenso entre os cristãos da região, é majoritário. O mesmo se aplica ao regime de Sisi no Egito.

Será que São Paulo, o apóstolo, que passou por Damasco, seria perseguido pelo ISIS e aliado de Assad se vivesse na Síria de hoje?

Mas, que fique claro, não podemos esquecer as atrocidades cometidas pelo regime de Assad. Ele protege cristãos, de fato, mas suas forças mataram dezenas de milhares de pessoas em bombardeios indiscriminados que alvejam não apenas os rebeldes, mas também áreas civis.

Na Guerra da Síria, não há bonzinho.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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