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Se Obama fracassar, pode haver guerra entre Israel e Irã

gustavochacra

07 de setembro de 2009 | 11h03

Com os americanos no campo de batalha no Iraque e no Afeganistão, o presidente dos EUA, Barack Obama, usará este mês para determinar o destino de suas iniciativas diplomáticas para evitar novos conflitos armados no Oriente Médio, considerada uma das regiões mais instáveis do mundo. Em primeiro lugar, o ultimato para o Irã concordar em dialogar sobre a questão nuclear termina no fim de setembro, com a possibilidade de sanções mais duras serem aplicadas ao regime de Teerã. Segundo, a disputa entre israelenses e palestinos pode finalmente voltar à mesa de negociações, com o chefe da Casa Branca estudando delinear a sua própria proposta em seu discurso na Assembleia Geral da ONU daqui a duas semanas.

O resultado desta estratégia de Obama, segundo analistas ouvidos pelo Estado, será conhecido apenas em alguns meses. Pode tanto culminar em um amplo acordo de paz para a região, que colocaria o atual presidente em um patamar acima de Jimmy Carter (1977-81), que selou a paz entre egípcios e israelenses em Camp David nos anos setenta, e de George Bush (1989-93), o pai, tido como um dos responsáveis por levar palestinos e israelenses para o diálogo, além de conseguir formar uma coalizão de países árabes para remover o então líder iraquiano Saddam Hussein do Kuwait, sem afetar a imagem americana na região.

Caso fracasse, Obama talvez tenha que lidar com um cenário ainda mais grave do que seus dois antecessores, disseram os especialistas em política do Oriente Médio. Bill Clinton (1993-2001) encerrou seu mandato meses depois da eclosão da Segunda Intifada e George W. Bush (2001-09), com a guerra na Faixa de Gaza. Nos dois casos, depois de tentativas frustradas de resolver a disputa entre israelenses e palestinos.

A diferença, afirma Paul Salem, diretor do Centro de Oriente Médio do Carnegie Institute, em Beirute, é que Obama priorizou a solução para a disputa desde “o primeiro dia” de mandato. “Ele lançou uma iniciativa de paz e, partir deste ponto, seguirá adiante com uma conferência e negociações bilaterais”, acrescentou.

O problema para o presidente, diz Gary Sick, professor da Universidade Columbia e principal conselheiro da Casa Branca para questões iranianas durante a Revolução Islâmica (1979), será lidar com duas forças que agem para lados opostos dentro da política americana e também do Oriente Médio. Muitos políticos e analistas americanos “e a direita israelense, hoje no poder, argumentam que o Irã está um passo de se tornar uma potência nuclear. Esta linha de pensamento é fácil de vender dentro dos Estados Unidos, onde existe um histórico de enxergar os iranianos como uma ameaça desde a crise dos reféns na Embaixada em Teerã há 30 anos. As pessoas não confiam no Irã”.

Ao mesmo tempo, afirma Sick, “os iranianos passam por uma transformação interna na sua maior crise política desde a revolução, com enorme perda de legitimidade do regime”. Lembrando que a própria queda do xá Reza Pahlavi, em 1979, demorou um ano, o professor da Columbia adverte que ninguém pode prever como o Irã estará daqui alguns meses. Dentro deste cenário de incerteza em Teerã e pressão interna nos EUA e do governo de Israel, Obama tem que fazer alguma coisa e o mais correto “é mesmo tentar dialogar”, ainda que não produza frutos aparentes na questão nuclear. A consequência seria o fortalecimento interno da oposição iraniana. “Com os EUA dispostos a conversar”, radicais como presidente Mahmoud Ahmadinejad teriam mais dificuldade para “dizer que os americanos são hostis”. Intensificar as sanções transformariam o regime “em uma resistência”, assim como Cuba ao longo de cinco décadas.

Na frente palestina, de acordo com Gary Gambill, editor do Middle East Monitor, uma das principais publicações sobre o Oriente Médio, Obama enfrentará dificuldades para conseguir “concessões de Israel em relação aos assentamentos devido à composição da coalizão de governo israelense, mas pode persuadir a administração de Netanyahu a reduzir o bloqueio à Faixa de Gaza”. Outro obstáculo, além do conservadorismo do governo de Israel, acrescenta Salem, do Carnegie, é a falta de força do Fatah, que controla a Autoridade Palestina, que não consegue cumprir com suas obrigações acordadas com Israel. Líderes do Hamas deram sinais de que concordariam com uma solução temporária de dois Estados, mas isso não foi suficiente para convencer Israel. Os EUA, por enquanto, tampouco devem conversar diretamente com o grupo palestino, a não ser por meio de intermediários, como o Egito e o ex-presidente Carter.

Caso não ocorram avanços nestas duas frentes em um período de ao redor de um ano, existe elevado risco de confronto. Se no conflito palestino há alguma esperança, o ceticismo prevalece na disputa entre Israel e Irã e será muito difícil Obama evitar um conflito entre israelenses e o Hezbollah ou, mais grave, envolvendo uma guerra regional dos israelenses contra os iranianos, avalia Salem.

Israel dará uma chance para a paz prosperar, “mas está pronto para a possibilidade de fracasso. E, nos próximos vezes, a discussão sobre uma ação militar pode crescer”, afirma o diretor do Carnegie, baseado em Beirute. “Chegará um ponto em que a questão nuclear iraniana será intolerável para Israel”. Sem alternativas, “eles levarão adiante uma ação militar”, diz Gambill. “Washington pode até influenciar no momento da ação, mas o ataque de Israel é quase inevitável”, acrescenta. Para o analista, o Hezbollah, aliado do Irã, está pronto para um conflito contra os israelenses se estes atacarem o Líbano, “mas o grupo xiita não terá como lutar contra Israel em nome dos iranianos. Seria inaceitável internamente no Líbano”. Mesmo assim, a organização está mais bem armada do que antes da Guerra de 2006, segundo análises de agências de risco político nos Estados Unidos.

A paz de Israel com a Síria, considerada uma prioridade no início da atual administração, avançou pouco, segundo Gambill. A principal conquista, até agora, é o início da normalização das relações com os EUA. Para Salem, o problema nesta disputa é a desconfiança mútua. “Israel exige que os sírios rompam com o Irã, Hezbollah e Hamas antes de negociar a devolução do Golã. Já os sírios apenas concordam em fazer isso depois de conseguirem de volta as colinas”, ocupadas por Israel na Guerra dos Seis Dias (1967).

Obama sabe que, no futuro, independentemente da sua popularidade interna, seu legado diplomático de homem da paz, conforme ele foi descrito na campanha eleitoral, pode ser definido pela resolução do conflito no Oriente Médio. As guerras do Afeganistão e do Iraque determinarão seu histórico militar.

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