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Até líderes do Shin Bet discordam de ocupação da Palestina

gustavochacra

04 de março de 2013 | 11h54

Assisti ontem ao documentário israelense que concorreu ao Oscar chamado The Gatekeepers, no qual são entrevistados seis ex-comandantes do Shin Bet, como é conhecida a agência de segurança interna de Israel. Literalmente, são as seis pessoas responsáveis por lidar com a ocupação dos territórios palestinos. E, impressionante, todos, depois de se aposentarem, admitiram ter ficado mais moderados  na questão dos palestinos.

Eles notam como a ocupação não serve para nada. Mais grave, dizem que, na verdade, os políticos israelenses, com a exceção de Yitzhac Rabin, mas incluindo Shimon Peres, nunca levaram a sério o processo de paz com os palestinos. O esquerdista Ehud Barak construiu mais assentamentos do que Benjamin Netanyahu, lembra um deles.

Em alguns momentos, os comandantes chegam a elogiar as agências de segurança palestinas pelo combate ao terrorismo. Isso mesmo, os seis ex-comandantes do Shin Bet. Criticam ainda duramente os colonos ao longo do documentário e os grupos extremistas judaicos que incitavam ataques contra Rabin. No filme, eles lamentam profundamente o terrorismo judaico. Apesar de combate-lo, acabam tendo seu trabalho, de acordo com eles, minado pelos políticos israelenses – em tempo, a expressão terrorismo judaico é dos comandantes do Shin Bet e se refere a grupos como o Jewish Underground, que planejou explodir o Domo da Rocha.

Sem dúvida, Israel é uma democracia admirável, com avanços impressionantes na sua indústria tecnológica e farmacêutica. Tel Aviv é, na minha opinião, ao lado de San Francisco, uma das cidades mais vanguardistas do mundo. Ao mesmo tempo, Israel vive na pior vizinhança do planeta,  ao lado de uma guerra civil na Síria, de um regime cambaleante na Jordânia, de um novo governo populista islâmico no Egito e do Hezbollah no Líbano. Enfrenta ainda a ameaça iraniana, não muito distante. É complicado ser o Canadá no Oriente Médio.

Internamente, os israelenses foram alvos de um terrorismo injustificável ao longo da Segunda Intifada, com centenas de civis sendo mortos em atentados suicidas bem longe dos territórios ocupados. Por outro lado, nem mesmo os ex-comandantes do Shin Bet, insisto, da agência responsável pela segurança de Israel, veem sentido da ocupação da Cisjordânia – e eles usam o termo ocupação, afinal até a ONU e quase todos os países do mundo reconhecem oficialmente como Palestina este território.

Sei que Israel saiu de Gaza, embora mantenha controle marítimo, aéreo e parcialmente terrestre (há fronteira com o Egito). Neste caso, notem, os israelenses têm o direito de se defender dos ataques do Hamas. Agora, no caso da Cisjordânia, Israel precisa urgentemente decidir se 1) se retira e permite a criação de um novo Estado que responderá por seus atos 2) concede cidadania a todos os palestinos residentes no território, o que na prática acabaria com o caráter judaico de Israel. A terceira opção é a anexação sem cidadania, o que seria inaceitável até para os EUA.

Ah, o leitor dirá que Israel não tem parceiro na paz. Os comandantes do Shin Bet dizem que os palestinos também não têm parceiro para a paz. E, na avaliação de pelo menos um deles, Israel deve negociar até com o Hamas pois não existe outra opção. Insisto, o Shin Bet é quem cuida da segurança de Israel

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009 e comentarista do programa Globo News Em Pauta, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti, Furacão Sandy, Eleições Americanas e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen.  No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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