As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Sem Papai Noel, mas com Shalit, Ceaucesco, Khamanei, Hariri, Assad, Obama e Maradona

gustavochacra

22 de dezembro de 2009 | 14h02

Israel – Tem tanto assunto que fica difícil decidir sobre o que escrever. Primeiro, os de sempre, como a troca do Gilad Shalit pelos prisioneiros palestinos. O Hamas dificilmente abrirá mão de sua proposta. Se eles liberarem o Shalit, perdem a sua única moeda de troca. Tentarão valorizá-la o máximo possível. O jogo funciona assim. O Hamas sempre oferece o Shalit, mas o mantém, ao longo de cada nome de prisioneiro palestino

Você troca o Shalit pelo Barghouti? Troco, mas quero mais
Você troca o Shalit pelo Prisioneiro 2? Troco, mas quero mais
Você troca o Shalit pelo Prisioneiro 1000? troco, mas quero mais

Israel não se importa de libertar a maioria dos prisioneiros, mas alguns são envolvidos em atentados que chocaram os israelenses, como o da pizzaria Sbarro, onde morreu um brasileiro.

Quando chega neste ponto, Israel diz não. O Hamas afirma que, então, não quer a troca

Pela lógica, não é que o Hamas considere o Shalit mais importante do que os palestinos. Tampouco o Hamas valoriza os prisioneiros sanguinários responsáveis pela morte de israelenses do que aqueles que não cometeram absolutamente nenhum crime, mas estão detidos em Israel. O que o Hamas quer é dar um golpe no governo israelense, dizer que venceu esta batalha, que obrigou Israel a se ajoelhar. Se eu fosse Israel, aceitava e ignorava o outro lado. Mais ou menos como fez com o Hezbollah. Libertaram o assassino Samir Quntar. E olha que, na época, tiveram apenas os corpos dos soldados. Agora, teriam uma festa nacional para receber Shalit.


Romênia –
Outros temas se referem a países que nunca falamos, mas merecem destaque hoje, como a Romênia. Lembro-me bem, apesar de ainda ter 13 anos na época, de ver na TV, há exatas duas décadas, no dia de Natal, as notícias do fuzilamento do ditador romeno Nicolae Ceausesco. Era o fim do comunismo naquele país e ficou claro como os romenos possuíam um ódio do regime tão grande quanto idolatravam a ginasta Nadia Comaneci, que pode ser equiparada a Tiger Woods, Roger Federer, Michael Phelps, Michael Jordan, Usain Bolt, Pelé e Maradona como o maior atleta de todos os tempos.

Irã – Desta vez, os olhos estão no Irã e no funeral de ontem do aiatolá Montazeri, que já debatemos no post anterior. Até que ponto esta juventude odeia o regime que os governa? Será que o aiatolá Khamanei e Ahmadinejad terão um destino similar ao de Ceaucesco? O que fica claro é que, depois de uma revolução, como a comunista na Romênia e a supostamente islâmica no Irã, os regimes tendem a se transformar em ditaduras como os déspotas a quem sucederam, conforme demonstra o livro Revolução dos Porcos ou uma visita a Cuba.

Mas, para mim, o acontecimento da semana pode ser resumido a dois episódios no Oriente Médio.

1) Iraque – Depois da Guerra do Iraque, muitos disseram que o regime xiita se aproximaria do Irã. Verdade, se aproximou mesmo. O erro está em imaginar que apenas por possuírem a mesma religião e levarem adiante esta aproximação, estes dois países deixariam de lado disputas passadas. Em um mundo realista, o que vale mais são os interesses dos países. A religião não determina a política externa de ninguém. Irã e Iraque possuem problemas fronteiriços e os iranianos ocuparam uma área petrolífera no território iraquiano. Os dois lados não vão à guerra, mas conflitos ainda existem. Sem dúvida, as relações são infinitamente melhor do que nos tempos de Saddam Hussein, mas estão longe da perfeição.

2)Síria e Líbano mais uma vez, o mágico Assad deu uma aula de mestre. Por cinco anos, foi acusado internacionalmente de ter ordenado o assassinato do ex-premiê libanês Rafik Hariri em fevereiro de 2005 em atentado na marina de Beirute. Um tribunal da ONU foi montado para investigar o ataque terrorista. Agora, recebe seu filho e atual premiê libanês, Saad Hariri, em seu palácio em Damasco. Pode parecer anormal. Afinal, Hariri sempre deixou claro que desconfiava de Assad – o sírio nega envolvimento no atentado e não há provas conclusivas contra ele. De repente, Hariri passa a tratá-lo como amigo. No Líbano e a na Síria, é assim mesmo. Não é anormal. Assistam ao filme Poderoso Chefão e entenderão. O líder druzo, Kamal Jumblat, foi morto em ação atribuída a Damasco. Seu filho, Walid, também visitou a Síria para se encontrar com Hafez al Assad, pai de Bashar.

Estes encontros, conforme explica o analista libanês Elias Muhanna e autor do blog Qifa Nabki, indica que a Síria restaurou a sua posição dentro do Líbano, de acordo com entrevista concedida ao New York Times. No seu blog, o melhor sobre política libanesa, ele amplia um pouco a análise e diz que não se pode comparar as relações libanesas e sírias de agora com as de antes da Revolução dos Cedros. Afinal, as tropas de Damasco não ocupam mais o território libanês.

O que o analista não falou, é que o encontro também mostra uma mudança na visão síria do Líbano. Damasco se afasta do Hezbollah e volta a se aproximar de outras facções libanesas mais próximas dos EUA.

Estados Unidos –
A política externa do Brasil neste ano ficará para um próximo post. Mas não posso deixar de fora os Estados Unidos hoje. Obama encerra seu primeiro ano de mandato com uma vitória relativa na reforma do sistema de saúde e uma derrota sem muito impacto internamente na conferência sobre o clima na Dinamarca. O presidente também avançou um pouco na economia, com o PIB voltando a crescer e os bancos pagando os empréstimos concedidos governo. Mas a taxa de desemprego está em 10%. Sua iniciativa de dialogar com o Irã não teve resultados até agora e a diplomacia praticamente não alterou o programa nuclear iraniano. Um novo acordo para a redução no arsenal nuclear tampouco foi assinado com a Rússia. A prisão de Guantánamo não será fechada no prazo previsto. No Oriente Médio, israelenses e palestinos não retornaram para a mesa de negociações. Além disso, no Iraque, o presidente seguiu adiante com o processo de retirada iniciado pelo seu antecessor, George W. Bush. E, conforme afirmou em sua campanha, priorizou a Guerra no Afeganistão, elevando para cerca de 100 mil o contingente militar americano no território afegão. Vitorioso ou não, Obama termina o ano com o Nobel da Paz e sem a Olimpíada em Chicago.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.