As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Será que Morsy virará uma espécie de Jango?

gustavochacra

02 de julho de 2013 | 11h38

Não é apenas no Egito, mas também na Turquia e em diversas outras regiões do mundo. Quem está no governo acha que pode fazer o que quiser. Quem está na oposição se vê no direito de tentar derrubar os governantes com protestos nas ruas.

Mohammaed Morsy, da Irmandade Muçulmana, foi eleito presidente do Egito. Uma série de fatores contribuíram para a sua vitória, incluindo uma maior organização deste grupo que passou anos na clandestinidade durante a ditadura de Hosni Mubarak. Mas isso não tira a legitimidade dele. Ter uma boa máquina de campanha não é crime, como o próprio Barack Obama e o PT podem dizer.

O problema é que Morsy teve pouco mais da metade dos votos válidos. Sem dúvida, em uma democracia, dá liberdade para ele governar e é similar a Obama, Dilma ou Enrique Peña Nieto, presidente do México. Mas é preciso governar para todos os egípcios, não apenas para aqueles que votaram nele. E Morsy, infelizmente, passou a agir como uma espécie de Hugo Chávez do mundo árabe. Mas fracassou porque ele não controla todo o aparato de Estado, como o venezuelano controlava.

Sua popularidade despencou. Agora, isso não significa que o presidente do Egito deva ser deposto por militares. Seria um golpe. Não dá para um presidente, onde quer que seja, ter de renunciar ou ser forçado a deixar o poder devido a mega manifestações.

Caso Morsy tenha desrespeitado as leis, um processo de impeachment ou algo similar previsto na Constituição egípcia deveria ser levado adiante. Uma má administração apenas não é suficiente para derrubar um governante em regimes presidencialistas – seria distinto no parlamentarismo. George W. Bush terminou o mandato em ruínas, mas terminou. Logicamente, um candidato da oposição, acabou vencendo. Se Morsy é ruim, certamente a Irmandade perderia a próxima eleição.

Neste momento, existem três possibilidades para o Egito. Na primeira, os militares literalmente derrubam Morsy da Presidência ou agem como no Brasil pós renúncia de Jânio Quadros. Isto é, Morsy seria uma espécie de Jango em um novo regime parlamentarista, abrindo espaço para um referendo sobre o sistema de governo no futuro.

A segunda hipótese seria Morsy abrir mão do poder por conta própria, montando um governo de coalizão com os opositores. Seria algo comum em uma democracia avançada, mas complicado no Egito e especialmente para uma organização como a Irmandade.

A terceira probabilidade seria a de Morsy e a Irmandade decidirem lutar contra as Forças Armadas para se manterem no poder. Como lembra Hani Sabra, analista de Egito da consultoria de risco político Eurasia, eles ainda contam com o apoio de milhões de egípcios e enorme organização. Neste caso, o mais provável, haverá uma escalada para o caos.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

Comentários islamofóbicos, antisemitas e antiárabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima. O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes. Os comentários dos leitores não refletem a opinião do jornalista

Acompanhe também meus comentários no Globo News Em Pauta, na Rádio Estadão, na TV Estadão, no Estadão Noite no tablet, no Twitter @gugachacra , no Facebook Guga Chacra (me adicionem como seguidor), no Instagram e no Google Plus. Escrevam para mim no  gugachacra at outlook.com. Leiam também o blog do Ariel Palacios

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.