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Sócrates do Corinthians e a Primavera Árabe

gustavochacra

05 de dezembro de 2011 | 10h11

Estou de folga do jornal a partir de hoje até o dia 25, quando voltarei a Nova York. Mas no blog seguirei escrevendo normalmente aqui de São Paulo, onde vim visitar a minha família. No domingo, dia 11, pretendo encontrar os leitores em um bar da cidade. Darei mais detalhes ao longo da semana em post específico sobre o assunto. Já deixem reservado. Vários comentarias confirmaram presença via email.

Por ser palmeirense, desembarquei em Cumbica em uma data não muito favorável. O Corinthians conquistou seu quinto título brasileiro, ficando apenas três atrás do Palmeiras, atualmente octa. Mas é um avanço para os nossos rivais. Até os anos 1990, os alvinegros nunca haviam levantado uma taça nacional. Quem sabe, em 2012, finalmente vençam a Libertadores. A chance seria a mesma de os sauditas realizarem reformas democráticas e elegeram uma mulher presidente, depois de a monarquia concordar em deixar o poder pacificamente.

Deixando de brincadeira, ontem também foi o dia da perda do Sócrates. O ex-atleta do Corinthians foi daquelas figuras admiradas mesmo pelos adversários. Uma espécie de Yitzhac Rabin do futebol. Cito o primeiro-ministro de Israel, assassinado por um extremista israelense, porque ele, criticado ou não, era respeitado de Tel Aviv a Gaza, de Beirute a Jerusalém. 

Os vícios de Sócrates na vida pessoal não me interessam. O que chamou a atenção da minha geração e as dos mais velhos do que eu foi ver um homem conseguir estudar medicina na USP-Ribeirão, ser capitão da seleção brasileira de 1982 e idealizar um movimento chamado democracia corintiana. Isso sem falar no nome, Sócrates, que se encaixava perfeitamente na sua personalidade. 

Neste ano de Primavera Árabe, temos milhões de jovens com a ideologia de Sócrates no mundo árabe sonhando com um mundo democrático. São os revolucionários da Tahrir, estudantes das universidades de Alexandria e do Cairo. Como o craque brasileiro nos anos 1970 e 80, eles não concordam com um status quo que massacrou os sonhos de uma geração. Egípcios, tunisianos, sírios, líbios, jordanianos, iemenitas, bairenitas e argelinos vivem em  uma época de incerteza, na qual não sabem para onde irão seus países.

Agora, vem a parte mais complicada. Depois de derrubarem os regimes, como aconteceu no Cairo, Tunis e Trípoli, precisam construir um novo país. E, infelizmente, os radicais salafistas começaram a dominar as eleições egípcias, vindo logo atrás da Irmandade Muçulmana. Na Líbia, nem precisarão de uma votação. 

De acordo com o meu professor Rashid Khalidi, da Universidade Columbia, em entrevista ao Haaretz, “a performance dos salafistas nas eleições parlamentares do Egito foram chocantes e estão conectadas ao financiamento saudita. Existem vários príncipes sauditas que possuem orçamentos pessoais do tamanho de Estados médios. Portanto, existem entre 20 e 30 políticas externas sauditas”.

Barack Obama, que representou o sonho de milhões de jovens americanos insatisfeitos com George W. Bush, repetiu seus antecessores e deixou a Arábia Saudita, de onde vieram 15 dos 19 terroristas do 11 de Setembro, influenciar a sua política externa para o Oriente Médio. Permite que salafistas dominem movimentos democráticos. Todos, dos sírios alauítas e cristãos, passando por moderados sunitas do Cairo, aos judeus do sul de Israel, sofrerão com os salafistas. Até mesmo o Hamas não consegue controlar estes radicais em Gaza. 

Uma pena, assim como a perda do Sócrates, o melhor jogador do Corinthians depois do Rivelino, segundo o Juca Kfouri. Com a diferença de ter sido um revolucionário e médico a vida toda. Verdade, os dois jamais foram campeões brasileiros com o time do Parque São Jorge. Mas o problema talvez fosse a camisa. E o Palmeiras? O ano que vem será importante.  Vamos disputar com a Portuguesa o posto de quarta força do futebol paulista. Já as minhas previsões para o mundo árabe virão nos próximos posts. Erro muito no futebol (apostei nos EUA e na Argentina na Copa), mas tenho acertado mais na crise síria.

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