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De Sanaa a Detroit – Al Qaeda se decentraliza e assume nova face

gustavochacra

10 de janeiro de 2010 | 02h21

Al-Qaeda mudou e o terrorismo assumiu uma nova face. Hoje, suas células podem estar em Londres, Sanaa ou mesmo dentro de uma base militar no Texas. São como franquias que seguem as ordens de líderes como Nasir al-Wahashy, comandante da Al-Qaeda na Península Arábica, tido como mais poderoso do que Osama bin Laden.

Recentemente, ele escreveu em uma revista islâmica um artigo aconselhando os militantes a realizar ataques mais simples, incluindo bombas improvisadas – justamente como ocorreu no fracassado atentado em um avião que aterrissaria em Detroit, nos EUA.

“Previmos que a maior parte dos ataques seria realizada por franquias jihadistas regionais, e não pelo comando da Al-Qaeda”, diz uma análise recente da consultoria de risco Eurasia, que acredita que essa tendência continue em 2010.

A descentralização do terror é resultado do uso da tecnologia. O nigeriano Umar Farouk Abdulmutallab, responsável pelo atentado de Detroit, assistia aos vídeos do clérigo radical americano Anwar al-Awalaki no YouTube. O major Nidal Malik Hasan, que matou 13 pessoas em uma base militar no Texas, trocava e-mails com Awalaki. Ninguém precisou treinar em campos da rede terrorista.

INIMIGOS

O nigeriano Abdulmutallab, de 23 anos, foi universitário em Londres. Filho de um banqueiro , nunca teve problemas financeiros. Como muitos jovens, decidiu estudar árabe no Iêmen, de onde só saiu em dezembro, depois de se reunir com o clérigo Awalaki. Passou por Etiópia, Gana, Nigéria e Holanda até tentar detonar os explosivos escondidos em sua cueca durante o voo.

Dias depois, o médico jordaniano Humam Khalil Abu Mulal al-Balawi, casado com uma jornalista turca e informante dos EUA, se explodiu em uma base americana no Afeganistão, matando sete agentes da CIA.

Os quatro envolvidos nesses três episódios – o atentado de Detroit, o massacre no Texas e o ataque à base da CIA – faziam parte da Al-Qaeda e todos possuíam alguma ligação com os EUA. O nigeriano tinha o visto. O jordaniano era um informante da CIA. O major pertencia ao Exército. O clérigo era cidadão americano.

Apesar de composta por muçulmanos, a organização de Osama bin Laden nunca contou com muita simpatia no mundo islâmico, seja árabe ou não. O Irã, que é persa, sempre considerou a Al-Qaeda um inimigo, especialmente porque Teerã segue a corrente xiita do islamismo, enquanto a rede terrorista é sunita e adota, dentro do sunismo, uma vertente radical denominada wahabismo.

Saddam Hussein, um secular que incluía cristãos em seu governo, também temia o radicalismo religioso da Al-Qaeda. O mesmo valia para Yasser Arafat, casado com uma cristã e assessorado por muitos não-muçulmanos. A Arábia Saudita, apesar de conservadora, preferiu priorizar suas relações com os EUA e entrou em choque com os seguidores de Bin Laden na Guerra do Golfo.

Hoje, a monarquia saudita é a maior inimiga da rede terrorista. Nem mesmo em um país dividido como o Líbano a Al-Qaeda obteve sucesso. Todos os libaneses se uniram, em 2007, na ofensiva do Exército contra o Fatah al-Islam, que havia dominado um campo de refugiados no norte do país. O líder da operação, o general Michel Suleiman, é hoje presidente do Líbano.

FALIDOS

Apenas dois países deram guarida a Bin Laden: Sudão e Afeganistão, ambos nos anos 90. Em outros, como Iêmen, Iraque, Somália e Paquistão, os jihadistas entraram à revelia do governo. “A Al-Qaeda considera países fracos a melhor saída para fixar suas bases. O Iêmen oferece a locação ideal para operar sem interferência externa”, disse Bruce Riedel, do Brookings Institution, de Washington.

A maior prova de que a Al-Qaeda procura Estados falidos é que suas tentativas de penetrar no Líbano e na Síria fracassaram. Ocorreram atentados na Jordânia e no Egito, mas a repressão se intensificou. Israel foi alvo de apenas uma ação da Al-Qaeda em sua história – mesmo assim, sem maiores consequências. As tentativas de seguidores de Bin Laden de se infiltrarem na Faixa de Gaza foram repelidas pelo Hamas. Os palestinos dizem que a organização prejudica seu objetivo de criar um país.

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Obs. Reportagem minha publicada na edição impressa do Estadão de domingo (05/01/2010)

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