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Todas as opções de intervenção na Síria são péssimas

gustavochacra

29 de abril de 2013 | 09h40

Não é simples uma intervenção na Síria e, embora esta seja capaz de derrubar Bashar al Assad, a guerra civil prosseguiria. No Iraque, apenas para ficar em um exemplo simples, o conflito começou com a queda de Saddam Hussein e,  dez anos mais tarde, segue a todo vapor e se agravou neste mês.

Ainda assim, existem três correntes intervencionistas. A primeira, defende que os EUA armem facções rebeldes que não sejam ligadas à Al Qaeda. A segunda, afirma que operações aéreas, similares às da Líbia em 2011, aliadas ao armamento dos opositores, seria a solução. Por último, alguns dizem que o ideal seria enviar tropas internacionais.

No primeiro caso, o argumento é forte. Hoje facções mais radicais conseguem armamentos com dinheiro de simpatizantes no Golfo Pérsico. Desta forma, estas milícias, como a Frente Nusrah, ligada à Al Qaeda, estão na vanguarda militar contra o regime de Bashar al Assad. Já os grupos mais laicos, como o Exército Livre da Síria, enfrentam dificuldades para conseguir armas.

O problema desta alternativa é que logisticamente não será simples diferenciar os grupos dentro da Síria, embora possível. Além disso, no passado, os EUA armou milícias que, posteriormente, se voltaram contra os americanos. O exemplo mais clássico é o Taleban, que recebeu apoio para lutar contra a União Soviética nos anos 1980. Mais recentemente, tiveram os grupos na Líbia que depois cometeram atentado contra o consulado americano em Benghasi.

Os bombardeios aéreos  enfrentam dois obstáculos. Primeiro, a Síria possui uma poderosa defesa antiaérea, capaz de abater aviões estrangeiros. Mísseis poderiam ser usados a partir de outros países, mas o regime de Assad poderia contra-atacar com armas químicas, sugando outras nações para o conflito. Drones seriam a última possibilidade, mas os problemas seriam similares aos dos mísseis. Além disso, como estas ações interromperiam a carnificina no solo? Talvez até piorassem, abrindo as portas para matanças em Damasco.

Sobra a opção de enviar tropas. Mas que país os enviaria, sabendo que centenas ou mesmo milhares seriam mortos? Como eles conseguiriam lutar contra uma série de grupos diferentes da oposição ligados à Al Qaeda, além do poderoso Exército de Assad? Certamente o número de vítimas se multiplicaria – apesar de sanguinária, a Guerra Civil da Síria mata menos do que a intervenção americana no Iraque.

Não há solução para a Guerra Civil da Síria. O conflito continuará até, em um futuro ainda distante, surgir um novo equilíbrio de poder. No Líbano, demorou 15 anos. No Iraque, já faz dez. No Afeganistão, 30. A Síria está apenas no seu segundo ano de guerra.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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