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Quais são os 3 argumentos para defender uma vitória de Assad na Guerra da Síria?

gustavochacra

16 de dezembro de 2013 | 12h49

Começam a surgir vozes nos EUA e na Europa defendendo que a melhor (ou a menos negativa) opção para a Síria neste momento é uma vitória de Bashar al Assad. Na semana passada, tivemos, por exemplo, uma declaração do ex-diretor da CIA Michael Hayden afirmando  ser preferível a permanência do líder sírio no poder. Analistas também cravam ser esta a melhor alternativa e até revista a The Economist, uma das maiores críticas do regime, escreveu um artigo neste sentido com o título de “Verdade Inconveniente” sobre a importância da vitória de Assad para a questão das armas químicas.

Nenhum deles defende as táticas de Assad e de seu regime. Todos o consideram um autocrata liderando um dos mais sanguinários regimes da face da terra, além de ser acusado de ter utilizado armas químicas. Mas três fatores ajudam a explicar porque é melhor Assad e suas forças vencerem a guerra.

1. A alternativa a Assad é a Al Qaeda ou radicais islâmicos similares

Primeiro, temos a alternativa a Assad. Hoje não existe nenhum grupo opositor relevante moderado. O Exército Livre da Síria, supostamente mais laico, entrou em colapso e seu líder sequer conseguiu ficar no território sírio. Todos os que possuem força são extremistas islâmicos sunitas. A diferença é que duas das principais facções, a Frente Nusrah e o ISIS, são aliados da Al Qaeda, embora inimigos entre si, e o terceiro, conhecido como Fronte Islâmico, não. Qualquer um deles, caso chegue ao poder em Damasco, instalaria um regime nos moldes do Taleban em uma nação conhecida por sua tolerância religiosa e convivência pacífica entre cristãos e muçulmanos, além de ser um dos três países árabes mais ocidentalizados depois do Líbano e da Tunísia. Certamente minorias cristãs, alauítas e druzas, que já vêm sendo alvo de massacres cometidos por opositores, seriam perseguidas, assim como sunitas seculares.

2. Uma onda ainda mais gigantesca de refugiados

Em segundo lugar, para derrubar Assad, seria necessário que Damasco se transformasse em uma nova Aleppo. O mesmo teria de se passar em bastiões pró-regime na costa Mediterrânea, como Tartus e Latakia. A capital síria e a maior parte dos centros populacionais do litoral são próximos do Líbano. Conflitos abertos nestas áreas levariam a uma onda de refugiados ainda mais gigantesca do que a atual. Provavelmente o Líbano, uma nação de 4 milhões de habitantes, veria o total de refugiados, hoje estimado em 1,5 milhão somando sírios e palestinos, superar o total de cidadãos em um caso inédito na história recente da humanidade.

3. Transporte das armas químicas

Por último, existe a questão das armas químicas. É necessário, como escreveu a The Economista, que Assad vença para que os armamentos sejam transportados de suas 22 instalações espalhadas pela Síria para os portos mediterrâneos, onde serão alocados em navios dinamarqueses e noruegueses, antes de serem transportados e transferidos para um americano.

 Conclusão

Notem que ninguém vê Assad como santo e a maior parte o descreve como maligno. Apenas avaliam que, diante do cenário atual, ele é melhor a alternativa para a estabilização do país e para uma possível transição no futuro. O custo de uma vitória dele será elevado, com o fortalecimento do Hezbollah no Líbano e do Irã na região como um todo. Mas, insisto, vejam o item dois, da alternativa. Israelenses e libaneses, por incrível que pareça, estariam menos inseguros com Assad, um líder secular pragmático, do que com radicais da Al Qaeda com um perfil igual ao do Taleban.

Obs. O total de mortos na Guerra da Síria é de 120 mil. Isso não significa que as forças de Assad mataram 120 mil. Esta é a contabilidade total de vítimas de ações do regime, vítimas de ações da oposição e combates entre os próprios rebeldes.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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