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Turquia acena para mundo islâmico, apesar de objetivo ser a União Européia

gustavochacra

08 de março de 2009 | 20h12

A Turquia busca mostrar à União Europeia (UE) e aos EUA que pode ajudar a resolver conflitos no Oriente Médio e servir como corredor alternativo de energia para os países europeus, diminuindo a dependência da Rússia. Esse é o discurso do governo do premiê Recep Tayyip Erdogan, do partido AKP, de origem islâmica. Já os seus críticos, ligados à tradicional elite secular de Istambul e Ancara, afirmam que o primeiro-ministro pretende, na verdade, aproximar-se de países muçulmanos e árabes, afastando-se, aos poucos, do caráter ocidental adotado pelos turcos após o fim do Império Otomano, há quase nove décadas.

O governo responde às acusações dos opositores com o argumento de que nunca uma administração como a de Erdogan se mobilizou tanto para incluir a Turquia na UE. A economia está estável, houve avanços nas questões armênias, cipriotas e curdas e, segundo os governistas, a democracia se aprofundou. Também defensores da inclusão no bloco europeu, os opositores afirmam o contrário, dizendo que atitudes como a de Erdogan, ao entrar em choque com um jornalista do Washington Post e com o presidente de Israel, Shimon Peres, em Davos, só prejudicam a imagem da Turquia no cenário europeu.

Até dezembro, o governo de Erdogan era visto como o mediador mais eficiente para o conflito árabe-israelense. Seu governo conseguiu levar sírios e israelenses para negociações indiretas e, ao mesmo tempo que realizava exercícios militares com Israel, recebia líderes do Hamas para reuniões.

Assinava acordos de cooperação com o Irã, mas permitia aos EUA usar as suas bases para operações no Iraque e no Afeganistão. No cenário europeu, propõe um corredor alternativo de energia, mas fica ao lado dos russos na questão do escudo antimísseis americanos no Leste Europeu. Nas palavras do professor Ahmet Davutoglu, principal assessor do premiê, “a política externa turca tem diversos eixos em constante busca da paz com e entre os seus vizinhos. Ao misturar realpolitik e idealismo permanece à mesma distância, por exemplo, do Hamas e de Israel”.

CRÍTICAS

Esta posição, porém, não é compartilhada por seus críticos, que discordam que Erdogan tenha sido equidistante no conflito em Gaza. “No passado, a política externa turca teve como base a promoção dos interesses nacionais turcos no Ocidente. Hoje, baseia-se numa visão de civilização do mundo, manifestada por Erdogan na forma como tratou os eventos em Gaza e no Sudão”, afirmou Soner Çagaptay, diretor do programa de pesquisa em Turquia do Washington Institute, num debate sobre a política externa turca.

“O AKP preocupa-se com a morte de muçulmanos se eles forem mortos por não-muçulmanos, mas não se interessa se muçulmanos matam muçulmanos. Essa visão anti-Ocidente, anti-EUA e anti-Israel é difundida por centros de estudos e órgãos de imprensa próximos ao AKP”, acrescentou Çagaptay.

Em artigo no Turkish Policy Quarterly, umas das principais publicações acadêmicas da Turquia, o analista político americano Nicolas Danforth observa que “antes da 2ª Guerra, não havia sentido para os turcos se aproximarem do Oriente Médio, já que quase todo o Império Otomano havia se convertido em mandato francês ou britânico”. No conflito global, o país se manteve neutro.

Durante a Guerra Fria, a Turquia se aliou aos EUA. De certa forma, o turcos se sentiam ameaçados pelos soviéticos, que queriam controlar o Bósforo para ter acesso ao Mediterrâneo. A aliança com Israel e o Irã pré-revolucionário era natural.

Os israelenses serviam como escudo para Egito e Síria, que estavam próximos a Moscou, e o xá contrabalançava o Iraque. “Na atual realidade mundial e turca, a balança de forças se alterou e não há como não se envolver com o Oriente Médio”, acrescenta Danforth.

Até dezembro, Erdogan seguiu à risca esta estratégia. Mas a guerra em Gaza alterou o cenário. O premiê se sentiu traído por Israel. Apesar da briga, rena última semana, diplomatas dos dois países deram declarações para reduzir a tensão.

A chegada de Barack Obama à presidência dos EUA e a possível aproximação com a Síria também removeram dos turcos o papel de principal mediador entre sírios e israelenses. Os americanos, que enviarão dois emissários a Damasco, devem assumir o comando das negociações. E o Egito tornou-se o principal articulador do debate entre o Fatah e o Hamas.

Aos poucos, Erdogan se torna secundário. Apesar disso, segundo o analista político Yusuf Kanli, do jornal Daily News, de Istambul, “a Turquia é muito importante para a retirada do Iraque e as operações no Afeganistão e certamente a administração Obama manterá boas relações com o governo”.

Obs. Reportagem minha publicada na edição impressa do jornal

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