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Um guia blogueiro sobre os palestinos de hoje

gustavochacra

17 de janeiro de 2014 | 13h53

Escrevi em 2009, em viagem a Israel e Palestina, sobre os diferentes “palestinos”. Na época, muitos ainda não liam o blog e outros não se lembram. Além disso, o cenário mudou. Portanto decidi abordar o tema mais uma vez.

Existem sete tipos de palestinos, cada um com demandas e situação de vida diferente. 1) Palestinos da Cisjordânia 2) Palestinos de Gaza 3) Palestinos de Israel (árabe-israelenses) 4) Palestinos da Jordânia 5) Palestinos do Líbano 6) Palestinos da Síria 7) Palestinos da Diáspora

Palestinos da Cisjordânia – vivem relativamente bem. Suas principais demandas são a criação de um Estado, com o fim dos assentamentos e dos postos de controle israelenses e Jerusalém Oriental como capital. Querem uma economia conectada a Israel, um país de primeiro mundo, mas ao mesmo tempo independente. São uma mistura de muçulmanos sunitas laicos, outros mais religiosos e minorias cristãs, normalmente integrantes da elite política e econômica. São habitantes há séculos de cidades como Nablus, Ramallah, Belém, Jerusalém e Jericó. O principal grupo político é o Fatah, aliado de monarquias do Golfo, Egito e parceiro dos EUA e de Israel nas negociações de paz

Palestinos de Gaza – vivem mal, com aumento da pobreza e uma economia precária. Minorias cristãs e muçulmanos mais laicos reclamam do aumento do radicalismo religioso. A população como um todo quer o fim do cerco feito por Israel e Egito, que controlam suas fronteiras terrestres, marítimas e o espaço aéreo. Não existem mais assentamentos ou postos de controle israelenses. O Hamas governa o território, equivalente a 6% do total reivindicado pelos palestinos para o futuro Estado. O grupo está órfão, depois de perder o apoio do Irã e da Síria, ao trair Assad na guerra civil e apoiar os rebeldes, e ver seus novos aliados enfrentarem outros problemas – Irmandade Muçulmana perdeu o poder no Egito e está na clandestinidade; Erdogan se depara com enormes problemas domésticos na Turquia; o emir do Qatar cedeu poder ao filho. Há, para completar, um aumento na presença de grupos salafistas e outros ligados à Al Qaeda, ainda mais radicais do que o Hamas. Existe uma mistura entre habitantes nativos de Gaza e outros descendentes de pessoas que viviam há gerações no que hoje é o sul de Israel

Palestinos de Israel (Árabe-Israelenses) – Vivem bem em uma economia de primeiro  mundo. Não querem deixar o país por serem há dezenas de gerações habitantes de cidades como Haifa e Nazaré, hoje parte do Estado de Israel, e por terem a oportunidade de viverem em uma das nações mais desenvolvidas do Mediterrâneo, com um sistema educacional e de saúde entre os melhores do planeta. Possuem liberdade religiosa (são majoritariamente muçulmanos, com minorias cristã e drusa) e podem disputar cargos políticos. Reclamam de ser tratados como cidadãos de segunda classe, afirmando que o Estado prioriza os judeus em muitos casos (o governo rejeita esta acusação).  Não concordam com Israel se identificar como um Estado judaico. A não ser pelos drusos e uma minoria de muçulmanos e cristãos, em sua maioria se recusam a integrar o Exército

Palestinos da Jordânia – vivem bem e integrados ao país, com todos os direitos. Normalmente, atuam na área privada, com os cargos públicos destinados aos jordanianos nativos. Defendem a criação de um Estado palestino independente na Cisjordânia, onde muitos têm suas origens. Mas a maior parte deles preferiria permanecer na Jordânia, devido aos negócios. Outros optariam por retornar – muitos visitam a Cisjordânia

 Palestinos da Síria – viviam bem até a guerra civil, com direito a educação e saúde, embora sem cidadania. Eram leais a Assad, que abrigava também lideranças do Hamas. Depois da Guerra Civil, se dividiram. Aliados do Hamas passaram a apoiar os rebeldes. Grupos mais laicos ficaram ao lado de Assad. Hoje travam uma guerra civil dentro da guerra civil. No campo de Yarmouk, por exemplo, milícias aliadas de Assad fizeram um cerco a certas áreas sob controle de grupos rebeldes e de facções palestinas anti-Assad, não permitindo a entrada de alimentos, com relatos de pessoas morrendo de fome, incluindo crianças

 Palestinos do Líbano – vivem como cidadãos de segunda classe em campos de refugiados, sendo impedidos de uma série de atividades pelo governo libanês. Não possuem a cidadania em grande parte por oposição dos cristãos e dos xiitas do Hezbollah porque são, em sua maioria, sunitas, o que afetaria a balança sectária. Muitos refugiados tampouco querem a cidadania porque isso poderia afetar o objetivo deles de um dia voltar para uma Palestina independente. Normalmente, são descendentes de pessoas que há gerações viviam no que hoje é o norte de Israel

 Palestinos da Diáspora – vivem ao redor do mundo e, normalmente, são bem sucedidos, integrando a elite em países como o Chile, Brasil, Argentina, Honduras e outros da América Central e do Sul. Também se sobressaem nos EUA e em países do Golfo Pérsico. Dá para compará-los aos imigrantes sírios e libaneses. Tanto cristãos como muçulmanos, são árduos ativistas anti-Israel, embora não tenham planos de retornar para um futuro Estado palestino. Alguns mantêm residência de veraneio na Cisjordânia

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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