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Um guia para entender as manifestações em Istambul

gustavochacra

03 Junho 2013 | 10h15

Erdogan no poder

O governo de Recep Tayyp Erdogan assumiu o poder há cerca de dez anos. Seu partido, o AKP, tem um viés conservador religioso. A Turquia, por outro lado, desde o colapso do Império Otomano e a Revolução de Mustafa Kemal Ataturk, havia se transformado em uma nação laica, embora majoritariamente muçulmana sunita, com minorias judaicas, armênias e cristã ortodoxa.

Ao longo das décadas de 1980 e 90, a Turquia passou por ditaduras militares seculares. Conservadores islâmicos eram perseguidos e praticamente banidos da política. A chegada de Erdogan ao poder foi, portanto, uma transformação no cenário turco. Os religiosos passaram a ser aceitos.

Reformas econômicas, mas desrespeito à democracia

Inicialmente, Erdogan foi elogiado. Respeitou as regras democráticas e melhorou a economia turca. Inclusive, em 2010 e 2011, a Turquia cresceu mais de 8%, embora no ano passado a taxa tenha sido bem menor, pouco superior a 2%. O premiê também sempre manteve uma boa aliança com os EUA, seja com George W. Bush ou com Barack Obama, de quem é amigo. Os turcos, vale lembrar, são integrantes da OTAN.

Ao mesmo tempo em que a economia e a aliança com os EUA seguiam bem, Erdogan, com o passar do tempo, começou a desrespeitar alguns pilares da democracia turca. A imprensa foi reprimida e militares foram presos. A boa relação militar com Israel foi praticamente jogada no lixo para defender o Hamas o Gaza. Ações também violaram o caráter laico da Turquia.

Classe média religiosa versus classe média laica

Uma nova classe média emergente e religiosa do interior também passou a assustar os tradicionais turcos da elite e mesmo a classe média de Istambul, Ancara e outras grandes cidades turcas..

Nos últimos meses, a imagem de Erdogan se deteriorou muito. Primeiro, sua aposta na queda de Bashar al Assad e o apoio à oposição trouxeram um conflito sangrento para a fronteira com a Turquia. Parte da população, especialmente a mais laica, não entende o motivo de o premiê ter rompido com Assad, um líder secular e entusiasta de investimentos turcos, para apoiar os rebeldes. A resposta, para muitos, seria o caráter religioso da oposição síria, similar ao de Erdogan.

O diálogo com os curdos do PKK tem um impacto menor. Assim como na rejeição do genocídio armênio e na ocupação ilegal do Chipre, a questão curda é uma das de menor atrito entre Erdogan e os opositores.

Hoje a Turquia possui três grupos. Os laicos, defensores do kemalismo, os religiosos, defensores de Erdogan, e os liberais, que são laicos, mas toleram a liberdade religiosa.

Os protestos e a repressão

A decisão de construir prédios otomanos e um shopping, destruindo um parque ao lado da praça Taksin, serviram de símbolo para o antagonismo entre estes grupos da sociedade turca. De um lado, o neo-otomanismo religioso de uma classe média emergente ligada a Erdogan. De outro, o tradicionalismo laico dos kemalistas, aliados aos liberais. É a Turquia religiosa de Erdogan, aliada dos EUA, contra a Turquia laica.

Erdogan, repetindo líderes que ele tanto critica, como Assad e Hosni Mubarak, ex-ditador do Egito, reprimiu com violência os protestos e prendeu mais de mil pessoas ao redor do país. Verdade, está longe de ser como na Síria. Além disso, Erdogan está legalmente no poder, em eleições vencidas justamente, diferentemente de Mubarak.

A praça Takzsin

Mas nada justifica a violência do governo contra o direito de os turcos se manifestarem pacificamente. Se Erdogan realmente se diz um democrata, deveria ouvir as demandas dos manifestantes e ver qual a melhor solução. Convenhamos, Istambul não precisa de réplicas de prédios otomanos. Basta cruzar o Chifre de Ouro, que separa a parte moderna de Istambul da antiga, onde fica o bairro de Sultanahmet, para ver suas históricas e magnificas construções otomanas. E para que um shopping se ao lado da Taksin está a charmosa e comercial rua Istklal?

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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