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Um repetente pode passar no vestibular da USP, mas nunca em Harvard

gustavochacra

25 de fevereiro de 2010 | 17h13

No Brasil, muitos estudantes repetem de ano. Eu mesmo fui reprovado no primeiro ano do colegial (atual ensino médio) do colégio Pueri Domus, de onde também fui “convidado a me retirar” por indisciplina no ano seguinte. Na época, eu apenas pensava em jogar pólo aquático no clube Paulistano e, acreditem, ler o que o Giles Lapouge e o Issa Ghorayeb escreviam sobre política internacional no Estadão, além de sair com as jovens adolescentes de São Paulo no litoral norte. No fim, passei na FUVEST duas vezes (larguei a USP nos dois casos) e na Cásper Líbero (onde sou formado em jornalismo)

Caso houvesse nascido nos EUA, com um histórico escolar como o meu, jamais seria aceito nas melhores universidades para a faculdade – eu fiz mestrado na Universidade Columbia, uma das dez melhores do mundo, e pesou minha experiência profissional e também as notas na Cásper Líbero. Quer dizer, não sei.

Quem sabe, se eu fosse americano, teria me saído melhor se tivesse estudado aqui. Porque morei na Carolina do Sul no segundo colegial e todas as minhas notas foram A ou A- (as mais altas). Nunca saberei. Afinal, no sistema brasileiro, não interessa o que você fez na escola. Se estudar, em um cursinho ou mesmo sozinho, pode ser aprovado no vestibular da FUVEST , como aconteceu comigo, ou da FGV. Nos Estados Unidos, o estudante precisa enviar as suas notas escolares, o resultado do SAT (similar ao ENEM), quatro cartas de recomendação de professores, um texto dizendo porque pretende estudar em determinada universidade e até mesmo vídeos postados no YouTube, como exige a Tufts, de Boston. Conta também na decisão se o aluno sabe tocar algum instrumento musical, exerceu liderança estudantil, foi um bom atleta ou se fala outros idiomas e viveu no exterior.

Para ser aprovado em Yale ou Princeton, duas das melhores universidades americanas, o estudante precisa estar entre os 5% melhores no SAT (basicamente, gabaritar), ter apenas A e A- no histórico, saber francês ou espanhol, cartas elogiosas dos professores, estar no time de alguma modalidade esportiva, tocar piano e ter sido representante de classe. Claro, provavelmente este estudante já leu muitos clássicos e terminou a high school resolvendo derivadas em cálculo 2. No Brasil, com esforço, mesmo com notas ruins e sendo expulso de escola, dá para passar no vestibular da USP. Não interessa para ninguém seu título do campeonato paulista de vôlei,  suas apresentações de violino, os quadros que pintou ou seu nível intermediário de alemão. Importa apenas o vestibular e o ENEM.

Existem outras diferenças também. Nos EUA, quase ninguém repete de ano. A pessoa pode tirar uma nota baixa, como C ou D, mas raramente um F (equivalente a repetir). Esta avaliação indica que o estudante não aprendeu bem o conteúdo e dará um sinal para universidade onde ele pretende estudar. Nas escolas brasileiras, os estudante recebem notas como 3,5, e 4, que avermelham o nosso boletim. Mesmo quando passamos de ano, recebemos um 6 e meio. Os CDFs tiram nove e às vezes dez. Infelizmente, pelo menos na minha época, eram ironizados pelos colegas que não o escolhiam para o handball na educação física. O jovem se vingava depois, ao ser aprovado em engenharia de produção na Poli. Porém o capitão do basquete, pagando um bom cursinho, acabava na mesma classe, apesar de sua nota 5,8 em química.

Na minha opinião, com sistema estudantil no segundo grau brasileiro, o vestibular é única forma de competição honesta. Porém considero o formato americano melhor porque valoriza outros talentos do estudante. De qualquer maneira, ver o nome na lista da FUVEST ou receber uma carta de admissão de uma Ivy League como a Columbia são dos momentos mais marcantes da vida de qualquer estudante. Ainda mais lembrando de quando a coordenadora Maria Odete diz que ligará para os seus pais para dizer que não há mais condições de aguentar a sua bagunça. Ou ver um boletim com todas as notas vermelhas.

ENCONTRO DOS LEITORES

Os leitores do blog irão realizar o encontro mensal neste sábado. Eu não participo porque moro em Nova York. Curiosamente, há judeus, árabes, e judeus árabes participando. Claro, também tem muçulmanos, ateus e cristãos. Em comum, todos são brasileiros e adoram debater questões do Oriente Médio, além de ocuparem por mais de dez horas a mesa de um bar na Vila Madalena. Quem quiser participar, envie um comentário com o nome e o email

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