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Uma análise blogueira do Hezbollah

gustavochacra

06 de fevereiro de 2013 | 14h36

O Hezbollah foi acusado pelo governo da Bulgária por um atentado contra um ônibus que levava israelenses em julho do ano passado. A investigação contou com a ajuda dos serviços de inteligência israelense e americano e é um dos maiores reveses da história da organização libanesa.

Historicamente, Hezbollah sempre buscou se descrever como um grupo de resistência a Israel e que atua politicamente e socialmente dentro do Líbano. No lado militar, em 2000, obteve enorme sucesso com a retirada israelense depois de duas décadas do sul do território libanês. Em 2006, conseguiu bater de frente com as forças de Israel.

 

No campo político, o Hezbollah integra a coalizão de governo do Líbano que, ironicamente, é aliado dos Estados Unidos. Além do grupo, fazem parte da 8 de Março, como são conhecidos os governistas, os cristãos seguidores de Michel Aoun, os xiitas mais moderados da Amal e facções sunitas ligadas ao premiê bilionário Nagib Mikati. A organização xiita libanesa também possui uma rede de TV, a Al Manar, jornal, creches e hospitais.

Além da imagem de resistência e a política, o Hezbollah sempre foi alvo de acusações de terrorismo. O grupo argumenta que não age como o Hamas ou a Al Qaeda. Nunca houve um atentado suicida realizado pelo Hezbollah dentro de Israel, por mais surpreendente que possa parecer esta afirmação. Os próprios israelenses jamais acusaram o grupo xiita de ataques em seu território.

Mas o Hezbollah era acusado de dois ataques terroristas. O primeiro, na AMIA, em Buenos Aires, onde a investigação foi patética e existem uma série de outras versões atribuindo o ataque a neonazistas argentinos ou ao governo da Síria (Carlos Menem era filho de sírios e inimigo de Hafez al Assad quando ocorreu o ataque terrorista). Também há a ação contra Rafik Hariri, então ex-premiê libanês e líder da oposição anti-Síria. Mais uma vez, outras versões ligam o episódio a Damasco, e não ao grupo xiita.

Por este motivo, a União Europeia e outros países se mantinham reticentes em acusar o Hezbollah de terrorista. No fundo, sabiam que a chance de a AMIA e a morte de Hariri terem sido causadas por outros atores, como a Síria, é enorme. Ao mesmo tempo, sabem que isolar o Hezbollah pode levar à desestabilização da política libanesa, marcado por um delicado balanço de poder.

Com a Bulgária, o cenário se altera. Os EUA e Israel devem pressionar a União Europeia a classificar o Hezbollah como terrorista. Esta definição pode dificultar operações civis e financeiras do grupo em solo europeu.

Pelo que conheço do grupo, tendo lido diversos livros, entrevistados membros e conhecidos suas área no Líbano, posso assegurar que o Hezbollah é anti-Israel e acredita que, com disciplina, conseguirá derrotar os israelenses no futuro. Não vejo eles alterando esta visão. Poderiam, se quisessem, tomar o poder em Beirute. Mas o interesse deles é outro.

Não vejo solução no curto prazo para a questão do Hezbollah. Avalio que os sunitas mais radicais têm ganho força no Líbano, em detrimento da tradicional classe mercantil sunita de Beirute, Trípoli e Sidon. Estes podem se tornar uma ameaça ao grupo xiita. A consequência pode ser um confronto, ainda que de baixa intensidade. Mas ambos seguirão em compasso de espera sobre o que ocorrerá na Síria.

Vale lembrar que, independentemente do resultado, tanto na Síria quanto no Líbano, o sentimento anti-Israel é enorme e ainda existem 400 mil refugiados no país. A saída seria um acordo de paz, com a minha sonhada viagem de carro de Tel Aviv a Beirute sendo possível. Mas este acordo é impossível.

No fim, a solução será a existente. EUA e europeus condenarão o braço militar do Hezbollah e tolerarão a presença do grupo no governo libanês pois sabem que a organização representa quase a totalidade dos xiitas (um terço da população), muitos cristãos e esquerdistas laicos. 

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009 e comentarista do programa Globo News Em Pauta, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti, Furacão Sandy, Eleições Americanas e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen.  No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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