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Uma conversa com a Zélia, 20 anos depois do Plano Collor

gustavochacra

16 de março de 2010 | 02h22

Eu tinha 13 anos, há exatas duas décadas, quando Zélia Cardoso de Mello, então ministra da Economia (não era Fazenda), anunciou o plano Collor, cortando a poupança de todo o mundo. Amigos cancelaram festas, pais não puderam efetuar o pagamento de casas, empresários quebraram, empregados receberam a carta de demissão e, meses depois, a inflação depois. Muitos passaram a odiar a Zélia e a culpá-la por todos estes problemas de um Brasil bem diferente do que emergiu depois do bem sucedido Plano Real.

Na semana passada, falei com a Zélia por telefone para marcar uma entrevista. Muito educada, ela pediu que eu enviasse as perguntas por email. Eu preferia encontrá-la, já que nós dois moramos em Nova York. Mas concordei com o pedido da ex-ministra. Abaixo, segue na íntegra e entrevista.

Antes, porém, gostaria que os leitores com problemas para publicar comentários devido à implantação do novo sistema me enviem um email para gchacra@hotmail.com.  Espero que tudo se solucione. Algumas pessoas não conseguem postar, mas outras sim. Vou encaminhar as reclamações para a área técnica.

Também aguardarei o fim da viagem de Lula a Israel e territórios palestinos para comentar sobre a visita. Como muitos observaram, já houve o problema com o chanceler Avigdor Lieberman. Mas vamos segurar e comentar um pouco da Zélia hoje, mesmo com o blog sendo mais focado em política internacional.

Outros posts sobre a minha viagem ao Yemen serão publicados ao longo dos próximos dias

Por que a sra. decidiu se mudar para Nova York?

A mudança para os EUA, como registrado nos jornais da época, foi idealizada pelo Chico Anysio, com quem eu estava casada na ocasião.

Onde a sra trabalha atualmente? Se não se importar, poderia dizer qual a sua remuneração?

Eu tenho uma firma de consultoria. [seu email traz, na assinatura, o nome Áquila Associates].

Seus filhos ainda vivem com a sra em Nova York? O Chico Anísio ainda os visita? Vocês dois se falam normalmente?

Meus filhos vivem aqui, mas viajam ao Brasil frequentemente ( de fato, acabamos de passar um ano no Rio de Janeiro) e eu tenho um ótimo relacionamento com o  Chico.

Onde vocês moram em Nova York? Como é o seu dia a dia? Está em algum novo relacionamento?

Moramos no Upper East Side [região nobre de Nova York, mas também com apartamentos de classe média]. Minha rotina não tem nada de especial, faço menos exercício do que devia, mas mais do que gostaria, estou solteira e muito bem.

Você ainda é reconhecida em Nova York por brasileiros? Quando a reconhecem, qual a reação?

Na maioria das vezes sou reconhecida e, em geral, a reação é muito positiva.

A sra ainda acompanha a política e a economia no Brasil? Visita o país sempre?

Acompanho tanto a economia quanto a política. Vou ao Brasil pelo menos três vezes por ano. Às vezes quatro, se o trabalho assim  exigir. Como disse, acabei de voltar de um ano no Brasil.

A sra mantém contato com alguém do governo Collor, incluindo o ex-presidente?

Mantenho contato com algumas pessoas, mas não com o ex-presidente.

Hoje, 20 anos depois, como foi o momento em que a Collor a convidou para ser ministra?

Foi emocionante.

Como foi a elaboração do plano? Quem participou?

O Plano Collor  teve a colaboração de muitos economistas , advogados, e pessoas de outras profissões, já que o Plano Collor abrangeu medidas em várias áreas envolvendo a privatização, reforma monetária, abertura da economia, Seria muito difícil citar todos os que colaboraram para o plano.

A sra se arrepende do plano? Faria diferente se fosse hoje? Qual a sua avaliação, duas décadas mais tarde?

O Plano Collor foi composto de medidas estruturais que mudaram o Brasil. Tenho muito orgulho de ter participado da sua elaboração e implementação. Quanto às medidas conjunturais, contidas no plano, apesar de não terem sido bem sucedidas, evitaram o caos econômico que se aprofundava dia a dia por conta da inflação de 82% ao mês.

Na época, a sra foi muito hostilizada?

Houve pessoas que hostilizaram e houve pessoas que apoiaram.

Voltando 20 anos no tempo, a sra aceitaria ser ministra ou acha que ainda era inexperiente para o cargo?

Não acho que era inexperiente. Acho que era jovem. Talvez, jovem demais e por isto idealista demais. Mas provavelmente aceitaria, pois foi um momento muito especial da vida nacional.

E a sra aceitaria ser ministra atualmente?

Eu estou muito bem na vida privada e quero continuar assim..

Com quais economistas brasileiros, incluindo do governo, a sra mantém contato?

A lista é grande já que a maioria dos meus amigos  são economistas  brasileiros.

A sra sente falta da carreira acadêmica? Voltou a dar aulas na Universidade Columbia ou na Universidade de Nova York?

Não dou aulas e sinto falta da vida acadêmica.

Há algo na sua carreira que a sra se arrepende?

Na verdade, não.

Pretende votar em quem para presidente na próxima eleição?

Preciso ver as plataformas para decidir meu voto.

O que a sra acha do desempenho de Lula na economia?

Inicialmente favorecido por uma ambiente de crescimento mundial, [seu governo] respondeu de maneira rápida e efetiva quando a maior crise econômica de nossa geração ocorreu. Isto fez com que o Brasil  passasse pela crise melhor do que os outros países e saísse dela mais rapidamente.

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