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Uma entrevista com o maior líder cristão do mundo árabe, o Patriarca Bechara Rai

gustavochacra

13 de maio de 2013 | 13h52

Demorou, mas com a ajuda da ótima repórter do Estadão Marilia Neustein, consegui uma entrevista com o Patriarca Cristão Maronita, Bechara Rai, maior autoridade cristã do mundo árabe e cardeal do Vaticano. Foram meses até conseguir. Graças à sua visita à lançamento de exposição do Gibran Khalil Gibran em São Paulo, organizado pela Lodi Brais, uma das líderes da comunidade libanesa no Brasil, deu certo.

Quer dizer, mais ou menos. Como eu não podia ir ao Brasil na data da visita dele, contei com a Marilia. Elaboramos as perguntas e ela foi pessoalmente falar com o Patriarca sobre Síria, Líbano, Egito, Primavera Árabe e Israel. 

 Obs. A entrevista completa está na edição impressa do Estadão na coluna da Sônia Racy

Acredita que a Primavera Árabe foi boa para os cristãos da região, mesmo sabendo que no Egito estão sendo perseguidos?

No começo recebemos de bons olhos a Primavera Árabe. Acreditávamos que o movimento estava reinvindicando reformas políticas e administrativas. E nasceu de um desejo do povo, de necessidades democráticas. Entretanto, por mais que os primeiros sinais se mostrassem bons, descobrimos que outros interesses da Política Internacional se manifestaram através de grupos radicais que pegaram em armas e defenderam interesses que não têm a ver com o povo.  Por isso, hoje, alguns não chamam de Primavera Árabe, mas de “Inverno Árabe”.

Que grupo são esses, especialmente na Siria?

Sabemos de grupos armados e financiados, sejam pelo Governo ou contra o Regime.  Existem muitos interesses que batem de frente, especiamente no conflito entre sunitas e xiitas. Então esses grupos radicais, infelizmente, com armas e financiamento deixam a situação do jeito que está hoje.

Há uma preocupação da guerra da Síria chegar ao Líbano. Acredita nisso? Quais seriam as consequências?

A guerra já atinge diretamente o Líbano. Primeiro porque temos, hoje no Líbano, cerca de 1 milhão e duzentos mil refugiados sírios.  Sendo que a população total do país é de  4 milhões. Essa população não é realocada com dignidade e portanto é um encargo pesado no sentido social, humanitário, de alimentação, de habitação e de segurança pública. Além disso, a guerra atrapalha os acordos comerciais de exportação com os países, como Jordânia, Turquia e Iraque, já que toda a exportação tem que passar por território sírio. O transporte e comércio ficam muito afetados.

E a violência?

Sim, já existe uma onda de violência da guerra que chega à cidade de Tripoli (Norte do Líbano), onde há uma enorme tensão entre alauítas e sunitas. É por isso que clamamos aos nossos países amigos que nos ajudem a caminhar rumo à paz.

Vossa eminência acredita que o Hezbollah tem que depor suas armas?

O caminho no futuro é que o Hezbollah entregue suas armas. Mas sabemos que não é simples.  O Hezbollah tem muitas questões envolvidas. Participa ativamente da vida política do Líbano, tem uma representação no congresso e tem que se defender das ameaças constantes de Israel. Nós, da Igreja Maronita, não acreditamos que nenhum partido deva ter armas, não acreditamos  nas soluções pelas armas. Esperamos que os conflitos possam se resolver de outra maneira. Para isso, os outros países árabes tem de se debruçar sobre essa questão e a comunidade internacional  ajudar numa solução política dos conflitos.

Vossa eminência acredita que haverá paz entre o Líbano e Israel?

Só haverá paz entre Israel e o Líbano quando duas questões importantes forem resolvidas. Em primeiro lugar, os territórios ocupados. Israel hoje ocupa uma região do Líbano que já foi assunto de resolução da ONU que pede sua desocupação.E a segunda é a questão palestina. O reconhecimento dos dois estados e o direito de regresso dos refugiados. O Líbano hoje conta com 500 mil refugiados palestinos que tem o direito de poder voltar ao seu país de origem. Israel não está dando sinais de que reconhecerá o Estado Palestino e, portanto, não vejo paz num horizonte próximo.

Vossa eminência apoia a lei Ortodoxa nas eleições no Líbano?

Pessoalmente, não apoio porque não houve consenso em adotá-la. Apesar de respeitar a lei eleitoral atual que divide a cota de cada religião em 50%, nós, do Patriarcado, acreditamos que os cidadãos devem ter uma lei que lhes permitem uma escolha mais direta de seus representantes. Que nenhuma religião, usufrui de seus votantes para eleger candidatos de outras religiões sem grande representatividade.  Acreditamos numa democracia para escolher nossos representantes.

Como é a relação de vossa eminencia com as outras religiões do Líbano?

O patriarcado se relaciona excelentemente bem com as outras religiões. Mantemos um diálogo com outras partes cristãs, bem como com os muçulmanos sunitas, xiitas e drusos.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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