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Uma explicação blogueira dos Drones de Obama

gustavochacra

07 de fevereiro de 2013 | 19h10

Faz quase três anos que falo dos Drones aqui no blog. Durante a campanha eleitoral americana, fiquei abordando continuamente o assunto, ignorado no Brasil. Meu objetivo nunca foi criticar Barack Obama. Apenas quis mostrar que o presidente dos EUA, idolatrado entre a maior parte dos brasileiros, não é o pacifista descrito por muitos. Não que isso seja ruim. Mas, em muitos pontos, o atual ocupante da Casa Branca age como seu antecessor, George W. Bush, conforme bem colocou o Wall Street Journal.

Neste post, tentarei ser didático na questão dos Drones e também recomendo a leitura de ótima análise escrita pela minha concorrente e amiga Luciana Coelho na edição impressa da Folha de S. Paulo. Quem quiser saber mais, em inglês, indico as matérias e editorias do New York Times, a Pro-Publica, a Slate e mesmo o Wall Street Journal. Há bons artigos acadêmicos também. Mas vamos aos pontos.

Os Drones são aviões não tripulados controlados remotamente. Nos últimos anos, se tornaram a principal arma dos Estados Unidos no combate ao terrorismo. Outros países, inclusive o Brasil, os usam para espionagem. Nesta semana, esta questão passou a ganhar enorme destaque em Washington com o vazamento de um documento do Departamento de Justiça explicando a legalidade destas operações e o depoimento ao Senado de John Brennan, arquiteto destas operações e indicado por Barack Obama para dirigir a CIA.

Os críticos dos Drones citam quatro principais pontos. Primeiro, existe uma falta de transparência do governo Obama. Mais grave, o presidente questionava seu antecessor, George W. Bush, pelo mesmo motivo. Apenas depois de enorme controversa, a administração concordou em conceder para as comissões de Inteligência do Senado e da Câmara. Mas o público conseguiu ter acesso apenas a parte destes documentos através do vazamento da NBC.

Em segundo lugar, nestas operações, um número indeterminado de civis são mortos. Calcula-se que mais de 200 crianças morreram nos bombardeios que atingem principalmente o Yemen, o Paquistão e a Somália.

O terceiro ponto citado é a ausência do direito a julgamento dos supostos militantes, especialmente americanos, que teriam esta defesa garantida pela Constituição. Vale lembrar que muitos prisioneiros de Guantánamo conseguiram provar que não integravam a Al Qaeda. Os alvos no Yemen, por exemplo, não tiveram este direito. São considerados culpados sem direito a defesa.

Por último, as ações dos EUA abrem um precedente para outros países, incluindo o Irã, e atores não-governamentais utilizarem estes aparelhos. O Hezbollah recentemente conseguiu penetrar um espaço aéreo israelense com um Drone. Não duvidem que traficantes de droga no México já os utilizem para cruzar a fronteira.

Os defensores destas operações afirmam que a Al Qaeda teria sido enfraquecida. Sem dúvida, no Paquistão isso ocorreu. No Yemen, é mais controversa e a Al Qaeda na Península Arábica está mais forte. Para completar, a rede terrorista viu sua importância aumentar no Norte da África. Além disso, não está claro ainda como fica a imagem americana no exterior onde estes aparelhos são usados. Diferentemente do que ocorre no Brasil, a questão dos Drones é acompanhada em muitos países.

Certamente, de todos acima, uma maior transparência nos ajudaria a determinar a eficácia e as verdadeiras consequências dos ataques com Drones. Sem elas, dependemos de relatos que não sabemos se são totalmente corretos.

Acompanhe também meus comentários no Globo News Em Pauta, na Rádio Estadão, na TV estadão, no Estadão Noite no tablet, no Twitter @gugachacra e na edição impressa do jornal O Estado de S. Paulo

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009 e comentarista do programa Globo News Em Pauta, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti, Furacão Sandy, Eleições Americanas e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen.  No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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