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Uma história blogueira do Oriente Médio – Parte 1

gustavochacra

30 Setembro 2011 | 19h59

no twitter @gugachacra

Estou em uma localidade secreta, depois de 26 horas de viagem. Contarei onde vim parar apenas daqui uma semana, quando for embora. Vocês entenderão o motivo. Enquanto não posso revelar o meu paradeiro e como não estou em condições de acompanhar o dia a dia no resto do mundo, decidi contar um pouco da história blogueira do Oriente Médio. Blogueira porque não há nela nenhuma ambição acadêmica ou mesmo didática. Apenas quero abrir o assunto para debate e, tenho certeza, os comentaristas me ajudarão.

O mundo atual é dividido em Estados nações. Mas nem sempre foi assim. Esta é uma noção européia relativamente recente. Partes da Ásia e da África ficaram independentes apenas nos últimos cem anos. Antes, eram os impérios, como os britânicos, francês, português, austro-húngaro, otomano, russo, chinês, entre outros.

A maior parte do Oriente Médio integrava o Império Otomano, decadente há alguns séculos. Nesta entidade, não havia a necessidade de um país para os cristãos, outro para judeus, um para xiitas, outro para sunitas. Todos viviam ali dentro. Claro, não era perfeito. Tinha guerras e perseguições. Era o século 19. No Brasil, havia escravos. Os sunitas comandavam o Império Otomano, mas judeus e cristãos tinham o direito a administrar as suas questões.

As pessoas do Oriente Médio não diziam ser otomanas. Sua identidade variava. Influenciava a religião, o clã, a família, a vila, o território e mesmo a Província. Não é incomum nas sinagogas de São Paulo escutarmos uma pessoa dizer “minha família é judia de Aleppo”. Notem que não fala “síria”, “árabe”, “otomana”. Nada disso. Apenas, “de Aleppo”. Ser judeu de Aleppo tem as suas características próprias.

Minha avó libanesa era cristã de Rachaya, no vale do Beqa. A melhor amiga dela também era cristã e também do vale do Beqa. Só que a Dona Violeta nasceu em Zahle, a alguns quilômetros de distância. As duas, apesar de amigas, brigavam justamente por esta pequena diferença na identidade.

A Violeta chamava a Lorete, minha avó, de caipira porque Rachaya, aos pés do Monte Hermon, era menor e não tinha o rio Bardauni, como Zahle. Minha avó retrucava dizendo que Rachaya era uma cidade historicamente mais importante (onde proclamaram a independência do Líbano?) e onde se falava o árabe mais corretamente, além de ter melhor culinária.

Estas diferenças se proliferavam por todos os lugares da região e de outras partes do mundo. Mais uma vez usando o exemplo da minha avó, ela não convivia com sunitas e xiitas na vila dela. Logo, era como se fossem inexistentes. Os “outros” eram os drusos, que dividiam com os cristãos a pequena Rachaya.

Portanto, nesta época, não existia a idéia de libanês, de sírio, de palestino, de israelense, de jordaniano, de iraquiano. Eram todos otomanos que não se identificavam como Otomanos. Portanto, alguém de Nablus era nablousi. E, além disso, podia ser cristão ou muçulmano. No próximo capítulo, que publicarei domingo desta localidade secreta, falarei do fim do Império Otomano e da criação dos países no mandato francês e britânico. E, acreditem, chegarei até questões como a criação de Israel e da Palestina. Mas não hoje.

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios