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Uma ativista árabe fala com o blog sobre as mulheres árabes

gustavochacra

27 de novembro de 2012 | 12h40

A Irmandade Muçulmana e seus líderes, como o presidente Mohammad Morsi, não podem ser considerados democratas e buscam instalar uma nova ditadura no Egito, ameaçando os direitos das mulheres. A afirmação é de Dalia Ziada, uma egípcia defensora dos direitos humanos no Cairo, que estará em dezembro em São Paulo para discursar no evento Women in the World, organizado pela editora da Newsweek, Tina Brown.

Qual a sua avaliação das ações de Morsi na semana passada para concentrar poderes?

Não ocorreu apenas na semana passada. Desde quando assumiu a Presidência, Morsi, apoiado pelo seu grupo, a Irmandade Muçulmana, está tentando estabelecer uma nova ditadura no Egito. Eles começaram pela remoção dos comandantes do Exército, passando a controlar as instituições militares. Posteriormente, eles passaram a controlar a Assembleia Constituinte. Por último, decidiram assumir o controle do sistema judicial.

Os protestos dos últimos dias no Cairo são especificamente contra as ações recentes de Morsi ou contra a Irmandade Muçulmana como um todo?

Morsi é apenas um fantoche nas mãos da Irmandade Muçulmana. Ele trabalha para eles, que os usam como máscara.

Há mais ou menos direitos para as mulheres depois da Primavera Árabe?

Nada mudou em termos de leis e sociedade. Mas há algumas tentativas de líderes da Irmandade Muçulmana para mudar leis que apoiam os direitos das mulheres. Eles querem nos dar menos direitos, mas não conseguem por pressão da sociedade civil. O que sofremos mais, porém, depois da revolução, é que estamos marginalizadas na vida pública e em cargos oficiais.

Governos eleitos democraticamente de viés islamitas não podem ser melhores para as mulheres do que ditaduras seculares?

De jeito nenhum. Os islamitas não podem ser democráticos. Usando a Sharia como argumento, políticos islamitas afirmam que o povo não deve governar. Portanto, em primeiro lugar, não há nada que possa ser descrito como islamitas democráticos. Sobre as mulheres, os islamitas são horríveis ao lidar com a gente. Eles nos veem como cidadãs de segunda classe que não devem fazer nada além de cuidas de nossas casas e dos filhos. Ditaduras seculares são algumas vezes boas para as mulheres e apoiam nossos direitos como uma forma de conquistar legitimidade aos olhos do Ocidente.

Na Tunísia, um país de maioria árabe e islâmica, as mulheres possuem o direito ao aborto há mais de 40 anos. Em muitos outros países, incluindo o Brasil, não possuem. Qual a sua visão sobre o direito ao aborto?

É algo controverso e nunca estive em uma situação na qual precisasse tomar uma posição.

Qual a sua avaliação sobre a situação das mulheres na Arábia Saudita, onde há, segundo alguns analistas, praticamente um Apartheid contra as mulheres, que sequer podem dirigir?

A Arábia Saudita está atrasada na história. Mas movimentos pelos direitos das mulheres estão crescendo e, em algum momento, obterão sucesso.

Você, como muçulmana, já foi alvo de islamofobia no Ocidente?

Nunca. Eu viajo muito e nunca fui ameaçada por ser muçulmana.

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” e do portal estadão.com.br em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009 e comentarista do programa Globo News Em Pauta, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti, Furacão Sandy, Eleições Americanas e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen.  No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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