As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Uma tentativa de entender a posição da Turquia na guerra contra o ISIS

gustavochacra

01 de outubro de 2014 | 17h21

O Oriente Médio possui três potências militares – Irã, Israel e Turquia. E um grande conflito em andamento – a Guerra do Iraque e da Síria. Sabemos a posição de duas destas nações.

1. Os iranianos lutam contra o ISIS (também conhecido como Grupo Estado Islâmico, ISIL e Daesh) desde antes de esta organização adotar este nome, há três anos, quando eclodiu a guerra civil da Síria

 2. Os israelenses, embora considerem o ISIS uma ameaça, optaram pelo isolacionismo neste conflito

E os turcos?

. Oficialmente, integram a coalizão comanda pelos EUA

. Mas não participam da ofensiva aérea ou terrestre

. No passado, de acordo com alguns analistas, o país teria permitido a entrada de jihadistas para integrarem o ISIS na Síria, a partir de sua fronteira

. O petróleo do ISIS seria vendido por intermediários para recipientes na Turquia

. A Turquia conseguiu a libertação de dezenas de turcos capturados pelo ISIS sem pagar resgate, como a França faz – americanos e britânicos foram decapitados, enquanto o Líbano tampouco concorda em pagar resgate pelos seus soldados capturados pelo ISIS

Além destes fatos descritos acima, temos também de levar em consideração os interesses da Turquia

. o país teme ser alvo do terrorismo por ter uma proximidade muito maior com os acontecimentos, diferentemente dos EUA ou do Reino Unido

. o ISIS está em guerra aberta contra os curdos na Síria. E estes curdos são aliados do PKK, uma organização curda considerada terrorista pela Turquia

. a tumba de Suleiman, avô de Osman, fundador do Império Otomano, fica em minúsculo enclave da Turquia dentro do território sírio, a cerca de 60 km da fronteira. A segurança do local está nas mãos de cerca de 40 membros das forças especiais turcas ameaçadas pelo ISIS e outros grupos rebeldes

. A Turquia tem 800 km de fronteira com a Síria

. a Turquia é abertamente inimiga de Assad e foi provavelmente o país que mais abertamente apoiou os rebeldes contra o regime – ironicamente, até 2010, a Turquia, e não o Irã ou a Rússia, era o principal parceiro econômico da Síria

. a Turquia não descarta enviar tropas terrestres para a Síria. Mas teme ser a força responsável pela ocupação no longo prazo, com todo o ônus político, financeiro e de vítimas

. a Turquia possui cerca de 1 milhão de refugiados sírios

E tem mais…

. A Turquia é historicamente uma nação laica, desde a Revolução Kemalista que se seguiu ao colapso do Império Otomano

. Seu Exército integra a OTAN e possui parceria militar com Israel

. Mas o atual presidente turco, Recep Tayyp Erdogan, que foi premiê por mais de dez anos, é religioso e, além disso, um forte crítico de Israel

. Ser religioso não significa que ele seja como os membros do ISIS. É religioso para padrões turcos, uma nação laica e ocidentalizada. Seria ultra secular em países como a Arábia Saudita e Emirados Árabes e praticamente um “infiel” para o ISIS

. Obama e Erdogan possuem boas relações

. Erdogan não tem problemas com o Irã, apesar de estarem em lados opostos em relação a Assad. O comércio entre os dois países é forte

. Erdogan tem alguns atritos com Putin, mas nada muito forte

. Erdogan odeia Assad, embora fossem grandes amigos até 2010

. Erdogan e Netanyahu possuem péssimas relações

Com todas estas informações, dá para concluir que a Turquia teme o ISIS tanto quanto os EUA ou o Reino Unido. Mas possui alguns interesses distintos. A questão curda pode ser irrelevante para americanos e britânicos, mas é prioritária para a Turquia, inclusive domesticamente. O fortalecimento dos curdos não é positivo na visão das turcos. A Turquia também teme o fortalecimento de Bashar al Assad, de quem é abertamente inimigo. Os turcos se consideram ao mesmo tempo uma nação ocidental e islâmica ao mesmo tempo. Nem o Líbano se encaixa neste perfil de ocidental e islâmico, pois os libaneses sobrepõem a identidade cristã acima da islâmica muitas vezes

 Por último, a Turquia sabe que a chance de um ataque terrorista em Istambul é muito maior do que em Londres ou Nova York, pois possui 800 km de fronteira com a Síria, além de milhares de jihadistas dentro de seu território. A cautela é muito maior

Não sei como faz para publicar comentários. Portanto pediria que comentem no meu Facebook (Guga Chacra)  e no Twitter (@gugachacra), aberto para seguidores

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

Comentários islamofóbicos, antissemitas, anticristãos e antiárabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco são permitidos ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima. O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes. Os comentários dos leitores não refletem a opinião do jornalista

Acompanhe também meus comentários no Globo News Em Pauta, na Rádio Estadão, na TV Estadão, no Estadão Noite no tablet, no Twitter @gugachacra , no Facebook Guga Chacra (me adicionem como seguidor), no Instagram e no Google Plus. Escrevam para mim no gugacha

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.