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Vale a pena ler este relato de um paulista no terremoto do Nepal

gustavochacra

01 de maio de 2015 | 11h21


Um amigo meu, o Marcos Freitas, estava no Nepal quando ocorreu o terremoto. Neste texto, ele faz o relato em primeira pessoa de sua experiência. Sei que estar em um lugar com uma tragédia natural altera completamente a forma como vemos o mundo. Cobri o terremoto no Haiti (ao contrário dele no Nepal, que presenciou os tremores, cheguei depois) e foi o evento que mais me marcou na vida. Isso porque eu sabia do terremoto e viajei com toda uma estrutura, ficando na base militar brasileira em Porto Príncipe e podendo, se necessário, sair por terra para a República Dominicana. Imagino o impacto para o Marcos, que estava na hora do terremoto em um país distante como o Nepal. Abaixo, o ótimo relato. O Marcos, 33, é paulista, executivo e morou em Berkeley, na Califórnia, onde fez MBA com um amigo do Nepal

 1 dia – Sábado

O Aeroporto – Chego ao aeroporto de Katmandu sábado de manhã num dia agradável de sol. Essa é uma viagem que planejei por meses. Passarei quatro dias num trekking pelos Himalaias e três dias em Katmandu na casa de um dos meus melhores amigos do mestrado que fiz nos EUA – um nepalês que mora em Houston. Logo que chego, noto a precariedade do aeroporto todo construído em tijolo aparente. O processo de imigração é confuso, mas rápido.

O Terremoto – Desço para buscar minha mala na esteira. Enquanto espero pela mala, noto que uma lâmpada do aeroporto está piscando e penso em como a infraestrutura do pais é precária. De repente, todas as luzes se apagam e o teto começa a tremer. Ouço um barulho ensurdecedor e o chão começa a tremer muito. Por estar em um aeroporto, a primeira coisa que vem à cabeça é que se trata de um ataque terrorista.

A Mochila – Em pânico todos nós corremos em direção à saída do aeroporto. Enquanto corro penso que posso morrer a qualquer momento. Já fora do aeroporto e muito aliviado, entendo que foi um terremoto e lembro que deixei minha mochila de mão com meu passaporte dentro do aeroporto. Mesmo sem meus documentos, o sentimento á de calma. Estou bem e posso agora resolver qualquer outro problema. Aos poucos, após o terremoto, instala-se o caos na porta do aeroporto com os passageiros querendo voltar para buscar seus pertences enquanto os policiais bloqueiam a porta. Um novo e menor tremor acontece e aqueles que tentam entrar de volta no aeroporto correm para fora. Grudo em um Indiano que também está sem seu passaporte e consegue se comunicar com os policias Nepaleses. Depois de muita insistência, os policias deixam somente nós dois entrarmos para buscarmos nossos documentos.

 Os brasileiros – De volta à porta do aeroporto, uma guia local me recomenda não ir para meu hotel em Thamel, o centro antigo da cidade cheio de prédios antigos e grudados uns aos outros. Decido ir para um hotel de um Argentino que acabo de conhecer. No caminho do hotel, vejo pela primeira vez prédios e muros destruídos. As ruas, repletas de gente, ilustravam uma cena desesperadora. Chegamos ao hotel dele. Estava destruído, com todos os hóspedes na frente da piscina. Lá conheço 3 brasileiros que estavam em Durbar Square no momento do terremoto e viram os quatro templos cheio de gente desabarem.

 O Hotel – Nenhum celular pega. O guia dos brasileiros me recomenda ir para meu hotel e me dá uma carona no seu scooter. Ele está muito preocupado em recolocar seus clientes em algum lugar e diz que vai pagar por isso. Ao chegar ao meu hotel, que estava em ótimas condições, meu primeiro objetivo é ligar para minha família. São 7 da manha em SP e minha mãe pode acordar logo sabendo das notícias. Ligo do hotel e conto ao meu irmão o que aconteceu. O tempo começa a esfriar e minha mala despachada ficou no aeroporto. Com somente 25 dólares no bolso e nenhum caixa eletrônico funcionando, decido gastar 10 dólares para comprar um casaco. Eu e todos os hóspedes dormimos nas cadeiras do lobby do hotel e durante a noite saímos pelo menos 7 vezes para a rua por conta de tremores. O staff do hotel fica acordado durante toda a noite, batendo papo.

Dia 2 – Domingo

Sem água – Acordo no lobby do hotel que está um caos e finalmente entendo que as minhas férias acabaram. Ligo para meu irmão e estrago o date dele de sábado a noite para pedir para ele comprar uma passagem para mim para qualquer lugar. O celular não funciona. O wifi do hotel também não. No hotel, não há agua. Nenhum caixa eletrônico da cidade funciona e os taxistas não topam vir para Thamel. Consigo uma carona no carro de um motorista que nos leva ao aeroporto e não cobra nada por isso.

Novo tremor – – Na ida, vejo milhares de pessoas acampadas nos parques, praças ou qualquer lugar aberto. Chegando ao aeroporto, mais caos: centenas de pessoas acampadas na frente do aeroporto e uma fila com milhares de indianos esperando os voos de volta para a índia que o governo lhes prometeu. O processo para buscar a mala é surpreendentemente simples e seguro e em dois minutos entro e saio do aeroporto. De volta ao hotel, decido caminhar pela cidade e, enquanto observo a destruição toda, vem o segundo pior tremor secundário desde que cheguei. As pessoas em pânico correm pelas ruas para se proteger.

Omelete – Volto para o hotel para jantar e pela terceira vez seguida minha refeição é omelete com torrada. Apesar do óbvio cansaço, o staff do hotel continua de bom humor, atendendo a todos muito bem e com extrema dedicação. A preocupação deles com os hospedes me emociona várias vezes durante o dia e a essa altura nós todos já nos conhecemos bem. À noite, o wifi do hotel volta a funcionar e meu irmão me avisa que comprou uma passagem para o começo da tarde do dia seguinte. Novamente, dormimos todos no lobby do hotel e durante à noite os tremores voltam, mas são menos frequentes. A essa altura nem levanto para ir para a rua a não ser que o chão esteja tremendo bastante…

Dia 3 – Segunda Feira

 Filas – Acordo cedo, faço o check-out e, com somente 10 dólares no bolso, peco um taxi. Chego ao aeroporto e vejo que, embora menor, o caos continua. No check-in, a confusão é total. Várias filas para o mesmo atendente, sinais errados, filas cruzadas, uma bagunça. Muitas pessoas na fila estavam nos voos do dia anterior que foram cancelados. Apesar de tudo isso, o clima não esquenta e tudo é pacífico. Fico pensando que, se houver um terremoto, as coisas podem acabar mal nesse aeroporto, com pessoas pisoteadas. Depois de 4 horas de fila, faço o check-in e passo pela imigração.

Chegando ao portão de embarque, há mais caos e vejo que milhares de pessoas fizeram o check-in mas claramente não há voos chegando nem saindo na velocidade necessária para atender a todos. O aeroporto de Katmandu é do tamanho do de Florianópolis e obviamente não está preparado para tal movimento. Além dos voos de carreira, toda a ajuda humanitária externa ao Nepal chega por ali.

Os Himalaias – Minha maior preocupação é estar perto de alguma porta para sair rápido se necessário. Surpreendentemente, chamam meu voo com apenas três horas de atraso. O voo que saia 4 horas antes do meu da mesma companhia aérea, por exemplo, ainda não foi chamado e vários outros voos foram cancelados. Na saída do voo, vejo pela primeira vez os Himalaias pela janela do avião e fico triste por ir embora, mas grato por estar bem. Saio de Katmandu com um misto de alívio e tristeza pelo o que vivi e gratidão e admiração pelo povo Nepalês.