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Vale a pena visitar Beirute, Damasco e Teerã? Sim! E Tel Aviv? Também

gustavochacra

10 de novembro de 2015 | 12h30

João Pereira Coutinho, um dos maiores expoentes da nova geração de escritores em língua portuguesa e conhecido colunista do jornal Folha de S. Paulo, escreve hoje um bem argumentado texto em resposta a Caetano Veloso. Não entrarei no mérito pois respeito a opinião de todos. Mas, no fim do texto, Coutinho escreve este parágrafo
“Fundada em 1909 por emigrantes judeus –ainda a Palestina era parte do Império Otomano–, ela expressa o tipo de cosmopolitismo e familiaridade que não se encontra nas capitais islâmicas da vizinhança. Capitais de países onde democracia, respeito pelos direitos humanos ou igualdade entre os sexos são produtos raros. Seria uma pena que Caetano Veloso, um homem inteligente, trocasse Tel Aviv por Damasco, Teerã ou Riade.”
Com todo o respeito a ele, discordo de alguns pontos e concordo em outros. Na parte de que Irã, Arábia Saudita e Síria não respeitam os direitos humanos, ele tem razão. Na de Tel Aviv, também. É uma cidade cosmopolita e linda. Gosto muito de andar pelo Boulevard Dizengoff e tomar um café no Boulevard Rothschild. É uma espécie de mistura de Berlim, Rio de Janeiro e San Francisco. Mas não é a única cidade cosmopolista e democrática da região. Neste ponto, discordo de Coutinho. Beirute é uma das metrópoles mais cosmopolitas do mundo, capital de uma nação democrática (embora sectária), com seus habitantes falando o “hi-kifak-çava”, uma mistura de inglês, francês e árabe levantino – talvez o último resquício de uma espécie de “Sabir”, a língua franca do Mediterrâneo.
Coutinho certamente ficaria surpreso com a cena artística de Beirute, relatada em reportagem recente do New York Times. O mesmo jornal americano, em outra reportagem, classificou a capital libanesa como uma das melhores vidas noturnas do mundo – alguns dizem ser a capital gay do planeta. Beirute tem seus bares na área armênia em Mar Mikhail (São Michel), suas igrejas em Ashrafyeh, suas mesquitas no Solidere, seus cafés em Hamra, os fumantes de narguilé e banhistas do Corniche, as meninas de bíquini bebendo champagne na piscina do Hotel St George, as lojas sofisticadas do Beirut Suks e do shopping ABC (certamente tão sofisticados quanto os melhores shoppings de São Paulo e do Rio), a Universidade Americana de Beirute, com o campus mais bonito do mundo em uma colina à beira do Mediterrâneo, a Sinagoga Magen David, os liceus franceses e uma das melhores culinárias do mundo em centenas de restaurantes libaneses e armênios. Uma cidade sem maioria religiosa, onde cristãos ortodoxos, armênios, cristãos maronitas, cristãos melquitas, cristãos assírios, cristãos siríacos, muçulmanos sunitas, xiitas e drusos e coexistem.
Sim, Beirute não é perfeita. Nenhuma cidade é. Atualmente, há até um problema de coleta de lixo, diminuindo a beleza desta cidade entre o Mediterrâneo o Monte Líbano nevado. Beirute foi alvo de invasões estrangeiras, seja da Síria ou seja de Israel. E seus habitantes se mataram em uma sangrenta guerra civil entre 1975 e 90. Grupos extremistas e terroristas operam na cidade. Tudo verdade. Uma pena. Mas, mesmo assim, Beirute é mais segura do que qualquer capital capital do Brasil e está reconstruída e brilhando novamente. E, mesmo com uma economia pequena, o Líbano luta para dar abrigo a 1,5 milhão de refugiados sírios e palestinos em meio a uma população 4 de milhões.
Verdade, Coutinho não fala de Beirute diretamente e cita capitais islâmicas. Beirute é multi religiosa, com uma forte identidade cristã e também muçulmana. Mas fala abertamente de Damasco, uma cidade com quatro patriarcados cristãos. Estive cerca de dez vezes na capital síria. Não é perfeita. Longe disso. Mas, até 2011, possuía uma magia especialmente na sua parte murada, repleta de jovens americanos e europeus estudando árabe e se misturando aos sírios no bairro de Bab Touma para tomar um arak, a bebida nacional da Síria, que também possui bons vinhos. Sem falar em andar pelo Suk Al Hamidyiah e tomar um sorvete no Bakdash, uma das mais tradicionais sorveterias do mundo, depois de jantar no Naranj – John Kerry e Brad Pitt já fizeram este passeio. Para completar, mesmo em meio a uma guerra civil, suas áreas centrais são mais seguras do que todas as capitais brasileiras – alguns subúrbios, como Douma, de fato são perigosos. E a Síria, como ele bem colocou, assim como o Irã e a Arábia Saudita, não respeita os direitos humanos – apesar de proteger as minorias religiosas.
Teerã eu nunca fui. Está na minha lista para ir com meu pai de férias. Mas quem foi relata ser uma metrópole fantástica. Recomendo, inclusive, que você leia o livro “Os Iranianos” do Samy Adghirini, que foi correspondente da Folha por muitos anos em Teerã. É uma verdadeira viagem ao Irã, um país sensacional, mas com um regime péssimo – assim como Portugal sempre foi fantástica, apesar do salazarismo. Riad, realmente, pelo que me falam, não tem muito o que fazer. Pode cortar da lista.
De qualquer maneira, meu sonho seria poder ir de Beirute até Tel Aviv de carro. Tenho certeza de que você também gostaria e se encantaria. Já fui até a fronteira dos dois países pelos dois lados. Também já fui à fronteira entre Israel e Síria no Golã pelos dois lados. Fiquei triste por não poder cruzar. Sou neto de libaneses de Rachaya, uma vila cristã e drusa na Tríplice Fronteira entre Israel-Líbano-Síria, aos pés do Monte Hermon. E tenho muitos amigos judeus e israelenses, assim como sírios e libaneses cristãos, sunitas, xiitas, alauítas, drusos e judeus. No Brasil, um país colonizado por portugueses como você, vivemos todos em harmonia. Há médicos judeus no Hospital Sírio-Libanês e médicos sírio-libaneses no Hospital Einstein, os dois melhores do Brasil. Um sócio do Monte Líbano pode ir à Hebraica e um sócio da Hebraica pode ir ao Monte Líbano. Ambos frequentam juntos o Paulistano e dividem as arquibancadas de um jogo do Corinthians e do Palmeiras. Torço para que, um dia, seja assim no Oriente Médio.
Portanto, não sugiro que Caetano troque ou deixe de trocar Tel Aviv por Damasco ou Teerã. Sugiro que ele torça pela paz e possa visitar ambas na mesma viagem.
Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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