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Valeu a pena derrubar Kadafi?

gustavochacra

10 de outubro de 2013 | 11h24

Valeu a pena derrubar Muamar Kadafi? O ditador líbio patrocinou atos terroristas nos anos 1980, apoiou o terrorismo internacional por décadas, reprimiu duramente a oposição, matou inocentes e levou adiante programas de desenvolvimento de armamentos nucleares.

Mas, quando foi derrubado, Kadafi havia abdicado do terrorismo, pago indenizações a vítimas de atentados, apoiava os EUA na Guerra ao Terror, combatendo a Al Qaeda, eliminou seus programas de desenvolvimento de armamentos de destruição em massa e doou dinheiro para campanhas eleitorais de políticos europeus. Verdade, a Líbia ainda era uma ditadura, não muito diferente de todos os aliados dos EUA no Golfo Pérsico, na África do Norte e, por que não, da China. Além disso, Kadafi estava velho e seu filho tinha planos para levar adiante reformas.

Mesmo assim, a OTAN, com o apoio de ditaduras árabes do Golfo Pérsico, usou a resolução 1973 da ONU, que estabelecia uma zona de exclusão aérea, para derrubar o regime de Kadafi. Cerca de 30 mil pessoas morreram no conflito em cerca de 4 meses em uma nação de 6 milhões. Como comparação, na guerra civil da Síria, morreram 100 mil pessoas em dois anos e meio e em uma população de 22 milhões. Façam as contas e verifiquem qual das duas foi mais sangrenta proporcionalmente.

Depois da queda de Kadafi, o embaixador do EUA na Líbia morreu em atentado contra o consulado americano em Benghasi, a França foi alvo de terrorismo e, agora, o premiê Ali Zeidan foi sequestrado por algumas horas hoje. Grande parte do país é controlado por milícias, sendo muitas delas terroristas e ligadas à Al Qaeda.  Estes grupos extremistas também apoiam facções terroristas na Síria e no Iraque e certamente daqui algum tempo atingirão o Ocidente. A produção de petróleo atualmente equivale a apenas 10% do período anterior ao conflito.

O Irã e a Coreia do Norte também observam a Líbia e avaliam se adianta abdicar de programas de desenvolvimento de armamentos nucleares e deixar de apoiar grupos terroristas internacionais. Afinal, o então líder líbio agiu exatamente como pediram e acabou deposto.

Por este motivo, volto à pergunta do começo do texto – valeu a pena derrubar Kadafi?

Meu amigo Rasheed Abou-AlSamh, colunista do jornal O Globo, avalia que valeu a pena sim e apresenta um bom argumento. “Ainda com o caos, eu acho que a maioria dos líbios estão felizes com a liberdade que tenham depois de décadas de ditadura.”

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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