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Vamos falar a verdade? Cristãos sírios têm medo de serem massacrados se Assad cair

gustavochacra

28 de junho de 2013 | 16h28

Dois arcebispos cristãos estão sequestrados na Síria por membros da oposição. Rebeldes opositores cometeram ontem um atentado terrorista no tradicional bairro cristão de Bab Touma, em Damasco. Facções da oposição também realizaram uma série de massacres em vilas cristãs. Há relatos, não confirmados, de que os rebeldes anti-Assad teriam decapitado três franciscanos. Cristãos, vivendo em Aleppo há séculos, precisaram fugir para Damasco ou para a costa Mediterrânea, em busca da proteção das forças de Assad.

Em outubro de 2011, quando estive na Síria, alertei que os sírios cristãos apoiavam abertamente Assad. E eles me advertiram dos riscos que os opositores ofereciam. O mesmo ocorreu mais recentemente em Beirute, em relação aos cristãos libaneses. Muitos deles não gostam de Assad devido aos tempos da ocupação síria do Líbano. Mas consideram o líder sírio o menor dos males quando veem o radicalismo da oposição síria.

Agora, me vem à cabeça minhas visitas às  duas vilas cristãs de Maaloula e  Sednaya, ainda onde se fala o aramaico. Foi dos raros lugares onde o regime de Bashar Al Assad não impôs restrições para a minha visita. Surpreendentemente, o agente do Ministério da Informação sequer acompanhou as minhas entrevistas. O mesmo ocorreu em Bab Touma, tradicional reduto cristão de Damasco.

Obviamente, ele sabia que eu falaria com cristãos e estes apoiavam e apoiam Bashar al Assad, temendo o futuro deles caso a oposição, cada vez mais radical de viés salafista (uma corrente ultra radical entre os sunitas), assuma o poder. Acho impressionante como, tirando a Rússia, a Ucrânia, o Líbano, a Armênia e, menor escala, o Brasil e o Irã, poucos na comunidade internacional se preocupam com os cristãos na Síria. Abaixo, algumas das frases que me disseram na Síria em um texto publicado no Estadão na época.

 “Todos os dias, das 5h às 7h, rezamos pela estabilidade de Assad no poder. Queremos tranqüilidade. O que os EUA e a França querem? Diga a eles que vivemos bem. O nosso presidente é muito bom. O Exército está preparado para respeitar a religião cristã”, afirmou a madre Frevonia Nabham, uma cristã grego-ortodoxa, chefe do convento de Saydnaya, o mais importante de país. Ela fez questão de mostrar os quadros de Assad, um muçulmano alauíta de viés laico, em meio a imagens de santos na parede.

George, um cristão siríaco-ortodoxo de Damasco, disse que “os alauítas, como Assad, entendem as liberdades dos cristãos. Mas isso acabará se os sunitas chegarem ao poder. Estamos todos com muito medo do que pode acontecer se Bashar for derrubado. Nós gostamos muito dele e o defenderemos até o fim”. Em seguida, ele rezou o Ave Maria e o Pai Nosso em aramaico, língua falada por Jesus, para que Assad permaneça no poder.

“Somos cristãos e estamos bem aqui, com Assad. Não queremos os EUA e a Europa se metendo nas nossas vidas. Somos cristãos e sírios. Os verdadeiros cristãos. Mas os americanos e franceses querem nos tirar daqui. Querem limpar esta região dos cristãos”, afirmou Youssef Massad, líder dos moradores da cidade Maloulla, um dos centros do cristianismo oriental que ainda mantém o aramaico como idioma das conversas do dia a dia.

O padre Taher Youssef, em uma igreja grego-católica (melquita) em Damasco,  afirmou que “os iraquianos nos explicaram o que aconteceu em seu país depois da invasão americana. Os EUA deram poder aos radicais muçulmanos(em Bagdá) e eles (os cristãos caldeus) precisaram vir para a Síria, já que Bashar al Assad é o único líder do mundo que defende os cristãos árabes”. Na parede, uma foto do líder sírio é maior do que a do próprio papa.

Na região de Jarumana, que concentra os refugiados iraquianos, um cristão vindo de Bagdá afirmou que Assad “ofereceu tudo” a eles. “Se ele cair, não teremos para onde ir. A Síria é o último abrigo dos cristãos. Os EUA e a França não fazem nada para nos ajudar. Somos daqui, somos árabes, não queremos ir embora. Sem Assad, isso vai acontecer”, afirmou.

“Veja, aqui na Síria você pode beber e namorar as mulheres. Não é como na Arábia Saudita. Lá elas nem podem andar sozinhas”, disse Michel Khoury. Massad, dos cristãos de Maloulla, também atacou os opositores. “Falo de boca cheia. Eles pedem liberdade? Para quê? Querem democracia? Para quê? Eles não dão liberdade nem mesmo para as famílias deles. Minha mulher e minha filha podem se vestir do jeito que quiserem. E as deles?”, disse em clara alusão aos radicais islâmicos sunitas, como tem sido pintada a oposição síria internamente.

 Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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