As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Vamos parar de ser ingênuos na Síria

gustavochacra

27 de março de 2013 | 09h23

Leia os últimos posts

A LIGA ÁRABE NÃO LIGA PARA AS MULHERES

VEJAM OS ATAQUES DE DRONES DE OBAMA

ALÉM DO IRAQUE, OBAMA TEME PERDER AFEGANISTÃO PARA o IRÃ

O raciocínio de muitas pessoas que não acompanham a crise na Síria é o seguinte – existe uma ditadura brutal. Jovens começaram a pedir por democracia. Aliás, toda a população síria defenderia a mesma coisa. O regime reagiu com violência. Em resposta, os opositores recorreram às armas para derrubar Bashar al Assad e instalar um sistema democrático. O líder sírio, por sua vez, seria levado para o Tribunal Penal Internacional.

Agora vamos à realidade. Primeiro, existe realmente uma ditadura na Síria que, nos últimos dois anos, se tornou brutal e sanguinária nos moldes dos piores regimes dos últimos 50 anos, cometendo crimes contra a humanidade, massacrando pessoas, incluindo crianças e idosos. Antes disso era mais liberal do que praticamente todas as outras ditaduras do mundo árabe, pelo menos em relação às mulheres e às minorias. Muitos sírios querem sim a instalação da democracia. Mas outros, com apoio de monarquias absolutistas extremistas islâmicas do Golfo Pérsico, querem apenas um novo regime de viés religioso em vez do atual, laico. Seria um Egito da Irmandade Muçulmana piorado, se isso é possível.

Para completar, muitos sírios, especialmente de minorias religiosas, como cristãos e alauítas, mas também muitos sunitas de classe média mais laicos das grandes cidades, gostam de Assad e da estabilidade e segurança que ele trazia – no Chile, na Argentina e no Brasil muitas pessoas gostavam das ditaduras militares. Pinochet era popular em Santiago, apesar da sua violenta repressão. Em Damasco, em vez de temer comunistas, eles temem os salafistas. De verdade, conheço muitos sírios, incluindo no Brasil e nos EUA, que gostam de Assad ou, pelo menos, temem a oposição. Se quiser, façam o teste e perguntem aos descendentes, especialmente os cristãos.

Qualquer resolução do conflito, que não vai ocorrer, tenham certeza, precisaria levar em conta não necessariamente Assad, mas as pessoas que o apoiam. O líder sírio não teria durado dois anos enfrentando uma oposição caso não desfrutasse de relativo apoio popular. Note que em gigantescas áreas da Síria, como a costa Mediterrânea, seu controle ainda é total. Damasco também está nas mãos do regime, embora alvo de ataques quase diários. E vejam este ótimo artigo do Thomas Friedman, no New York Times de hoje, que segue mais ou menos na mesma linha que o meu. 

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

Comentários islamofóbicos, antisemitas e antiárabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima. O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes. Os comentários dos leitores não refletem a opinião do jornalista

Acompanhe também meus comentários no Globo News Em Pauta, na Rádio Estadão, na TV Estadão, no Estadão Noite no tablet, no Twitter @gugachacra , no Facebook Guga Chacra (me adicionem como seguidor), no Instagram e no Google Plus. Escrevam para mim no  gugachacra at outlook.com. Leiam também o blog do Ariel Palacios