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Veja como o Cristianismo Ortodoxo explica a aliança Putin-Assad

gustavochacra

14 de setembro de 2016 | 12h51

A Igreja Cristã-Ortodoxa tem um papel gigantesco na política internacional do mundo e poucos prestam atenção, se focando equivocadamente em “Ocidente versus Islã” ou “Sunitas versus Xiitas”.

Hoje, finalmente, o New York Times se aprofundou na importância dos cristãos-ortodoxos dentro da Rússia. Conforme me escreveu o editor de Internacional da Globo News e especialista em Rússia, Filipe Barini, “a Igreja não é influenciadora do Estado, como no Brasil, nem os ideais da religião influenciam o Estado, como nos EUA. A Igreja faz parte do corpo do Estado russo, por vezes de maneiras tão sutis que não se percebe”.

Desde o começo da crise na Síria, tenho insistido que um dos fatores do apoio da Rússia para o regime de Bashar al Assad é a Igreja Cristã-Ortodoxa, embora não seja o único – pesa bastante a Síria ser um cliente e aliado russo desde os tempos da Guerra Fria, a base militar russa no Mediterrâneo e a visão de que Assad é o melhor para a estabilidade da Síria diante de opositores radicais, muitas vezes ligados ao ISIS, também conhecido como Grupo Estado Islâmico ou Daesh, e a Frente Nusrah, também conhecida como Frente de Conquista do Levante e Al Qaeda na Síria.

Assad, para ficar claro, é um líder laico. Ao contrário do que muitos falam, religião não influencia seu governo. Ele nasceu muçulmano alauíta, uma vertente mística do islamismo xiita. Posteriormente, se casou com uma sunita liberal síria de Londres, formada no King’s College e com passagem pelo JP Morgan, que nunca cobre a cabeça e usa All Star com calça jeans e camiseta. Muitos membros do seu governo, incluindo os dois vices, o premiê e membros cúpula militar são sunitas. Aliás, o ministro da Defesa também; seu antecessor era cristão.

A base de apoio a Assad é formada por alauítas, cristãos, drusos e muitos sunitas, especialmente os menos religiosos. Insisto, trata-se de um regime laico, com viés arabista estatizante. O apoio das minorias se dá acima de tudo por um temor diante do risco de os opositores, radicais sunitas, assumirem o poder e pela identificação com o “arabismo”.

Os cristãos da Síria são em sua maioria grego-ortodoxos, com minorias armênia (ortodoxa e católica), maronita, melquita (grego-católica), siríaca e assíria (mais perto da fronteira com o Iraque). E os cristãos grego-ortodoxos da Síria seguem o patriarcado de Antióquia, embora hoje a sede do patriarcado esteja em Damasco.

Estes cristãos grego-ortodoxos sempre foram muito bem integrados à sociedade síria. Inclusive, estão na base da formação do partido arabista Baath – um dos fundadores foi o cristão-ortodoxo Michel Aflaq. Também vale a pena ver que quem levou o arabismo para o Líbano foi cristão ortodoxo Antun Saadeh (morou em São Paulo).  A identidade “árabe” da Síria está até no nome do país, que é República Árabe Síria. Não é islâmica. É árabe e isso inclui os cristãos.

Os cristãos sírios sempre se sentiram à vontade durante o regime de Assad. Não se viam como minoria. Podiam e podem rezar nas áreas controladas pelo regimesem problemas. Integram o alto escalão político e econômico do regime. Para completar, historicamente, muitos sírios vão estudar na Rússia. Milhares retornaram posteriormente casados com russas que seguiam a religião ortodoxa.

E, voltando à Rússia, o patriarca Kirill, da Igreja Ortodoxa da Rússia, esteve em Damasco no início do conflito para formalmente apoiar Assad. Posteriormente, deu uma série de declarações dando suporte ao líder sírio. O patriarca da Igreja Grego-Ortodoxa Antioquina, João X (Yazigi) é um dos maiores entusiastas do líder sírio.

E não se trata apenas da Igreja Grego-Ortodoxa. Outros patriarcas do Oriente, como o da Igreja Melquita (Grego-Católica), o da Igreja Siríaca Ortodoxa, o da Siríaca Católica, e o da Cristã Maronita (que segue o catolicismo, mas com rito siríaco) declararam apoio a Assad.

Simplesmente, o cristianismo oriental tem diversas correntes que adotam uma visão de mundo, em muitos casos, similar à da Rússia e mesmo próxima da do Irã geopoliticamente (veja o Hezbollah aliado de partidos cristãos no Líbano). Há variações, como em diferentes correntes políticas de cristãos maronitas no Líbano. Mas os cristãos grego-ortodoxos da Síria costumam ser pró-Assad, arabistas, pró-palestinos (embora se sintam próximos dos judeus do mundo árabe e condenem a expulsão deles) e próximos da Rússia.

Obs. Meu avô libanês era cristão grego-ortodoxo

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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