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Você apoia uma intervenção na Síria? Então leia este texto

gustavochacra

13 Junho 2013 | 19h39

O presidente dos EUA, Barack Obama, decidiu dar um apoio militar para a oposição síria. Isto deve significar o fornecimento de armamentos e o treinamento de rebeldes, mas, pelo menos por enquanto, não o estabelecimento de uma zona de exclusão aérea

Esta decisão traz uma série de consequência

.É fácil entrar em um conflito, mas extremamente difícil sair

. Não se sabe qual o destino destes armamentos. Basta ver a Líbia, onde milícias armadas pela OTAN cometeram atentados contra consulados e embaixadas ocidentais e ainda desrespeitam o controle do Estado. No Afeganistão, nos anos 1990, os mujahedin, armados pelos EUA, se transformaram no regime do Taleban

. O grupo mais forte da oposição é a Frente Nusrah, aliada da Al Qaeda e considerada terrorista pelo próprio governo americano

. Minorias religiosas, especialmente os alauítas e cristãos, que apoiam abertamente Assad, devem ser massacrados futuramente pelos rebeldes, majoritariamente sunitas religiosos. Inclusive, muitos já foram, como xiitas pró-regime ontem

. O armamento dos rebeldes não garante vitória alguma. Rússia, Irã, Iraque e Hezbollah devem intensificar o apoio ao regime, que deve intensificar os esforços para vencer o conflito

. Os EUA partem do pressuposto que a maior parte da população síria é contra Assad. Não há nenhuma indicação neste sentido. No Golã, em território controlado por Israel, e sem a presença do regime, os moradores sírios apoiam abertamente Assad. Converse mesmo com sírios no Brasil e nos EUA, especialmente cristãos, e vejam de que lado eles estão

. O regime permanece extremamente forte em Damasco e na Costa Mediterrânea. Nesta área, em cidades como Tartus e Latakia, a força e o apoio ao regime é enorme. Não dá para imaginar como seria possível derrota-los, ainda que a capital venha a ficar nas mãos dos rebeldes

. Os EUA intervieram no Iraque e derrubaram Saddam Hussein em 2003. Dez anos mais tarde, apesar de o país já ter chegado a receber 180 mil membros das tropas da OTAN, a guerra continua – e o ˜número de mortos é mais do que o dobro na Síria, com um governo em Bagdá aliado do regime iraniano e também de Assad

. O objetivo pode ser derrubar Assad. Mas e depois? Como estabilizar o país? O que fazer com todas as Forças Armadas da Síria, que estão ao lado do regime? E as milícias pró-Assad? E como impedir a Frente Nusrah e outros grupos extremistas da oposição de assumirem o poder?

. Os EUA dizem defender a democracia. Mas, neste caso, estarão se aliando a regimes não democráticos. Um deles, a Arábia Saudita, possui um regime de Apartheid contra as mulheres.  Qual a lógica?

. O que são os rebeldes? São mais de mil facções armadas, sendo a mais forte delas ligada à Al Qaeda. O Exército Livre da Síria existe apenas no nome, sendo uma colcha de retalhos de grupos independentes. No Iraque, onde os EUA tinham 180 mil soldados e muito menos facções armadas, os americanos tiveram dificuldades sobre com quem fazer alianças

    Obs. Obama concorda com todos os pontos citados acima, tanto que, mesmo depois de dois anos e meio de conflito, se mantinha relutante em se envolver. Mas o presidente acabou cedendo a pressões de figuras como John McCain e Bill Clinton. O risco, como diriam os libertários americanos, são os EUA se aliarem à Al Qaeda, que está na oposição, contra os cristãos sírios, que apoiam o regime. É totalmente antagônico, mas é exatamente isso

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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