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Você defende mesmo uma intervenção na Síria? Veja quais seriam os péssimos resultados

gustavochacra

31 Maio 2013 | 10h54

Você é a favor de armar os opositores na Síria? Bom, primeiro é preciso definir  quais  grupos rebeldes receberiam os armamentos. São centenas ou mesmo mil, de acordo com Joshua Landis, professor da Universidade de Oklahoma e maior especialista em Síria nos EUA.

Como lembra Fareed Zakaria, colunista da Time e comentarista da CNN, os EUA enfrentaram enormes dificuldades para saber com quais grupos negociar no Iraque depois da queda de Saddam Hussein. Isso apesar de possuir 180 mil soldados no território iraquiano, além de milhares de diplomatas. Na Síria, o governo americano possui zero nos dois casos.

Vamos supor, apenas como exercício, que os EUA encontrem um suposto grupo confiável. Talvez o do general Idris, que eu falei nesta semana. Sempre lembrando que ele, apesar de desfrutar de respeito, é irrelevante para a maior parte dos grupos armados sírios e o seu Exército Livre da Síria é uma colcha de retalhos que não existe na prática, a não ser no nome.

Existiria, mesmo neste caso, o risco de armas serem traficadas para grupos mais extremistas . Outras facções, como a Frente Nusrah, ligada à Al Qaeda, continuariam com suas rotas de suprimento do Qatar e da Arábia Saudita. No fim, sem dúvida, os rebeldes estariam mais bem armados do que agora, embora divididos e sendo alguns deles terroristas. Com bombardeios aéreos da OTAN, talvez conseguissem bater de frente com Assad.

Aqui, uma pausa – o regime sírio avançou bastante nos últimos meses e está ganhando a guerra. Assad, se vencer a batalha de Qusayr, terá consolidado todo o território que lhe interessa. Isto é, terá Damasco, toda a Província de Homs e a costa Mediterrânea. Assim poderá se focar na recuperação total de Aleppo, hoje dividida.Vale lembrar que, das 14 capitais de Província na Síria, a oposição controla apenas uma.

Mas suponhamos na hoje improvável possibilidade de Assad ser derrotado graças “às armas dos rebeldes” e aos “bombardeios” de forças da OTAN. O que viria em seguida?

Primeiro, certamente haveria massacres e possível genocídio contra alauítas e cristãos, além de sunitas moderados. Membros destas duas religiões (e também classe média sunita das grandes cidades) apoiam abertamente o regime por temerem o radicalismo da oposição. Isto é, se você defender armar os opositores, saiba que existe uma imensa possibilidade de não termos mais cristãos na Síria – eles já fugiram das áreas controladas pelos opositores. Lembro que algumas vilas sírias são as últimas onde se fala o aramaico – eu estive em ambas diversas vezes fazendo matérias sobre os cristãos sírios.Todos defendiam Assad de uma forma impressionante.

Em segundo lugar, as facções opositoras passariam a lutar entre si para tomar o poder. Isso sem falar que armamentos pesados do regime poderiam ficar com milícias alauítas e cristãs, que lutariam naturalmente contra os rebeldes. A Síria viraria uma mistura de Somália com Iraque e Líbano dos anos 1980. Isto é, sem Estado e com brigas sectárias.

Para completar, e desculpem o texto longo, os EUA armaram os mujahedeen no Afeganistão para lutar contra a ocupação soviética e o seu regime aliado nos anos 1980. Bem parecido com a Síria hoje, visto que Assad recebe apoio dos russos. O resultado da intervenção americana foi a tomada do poder pelo Taleban, que nada mais são do que veteranos mujahedeen. Havia também, ao lado deles, muitos estrangeiros extremistas do mundo islâmico, como os rebeldes na Síria agora. Eles formaram a Al Qaeda. E tivemos o 11 de Setembro de 2001.

Recentemente, os EUA também armaram os rebeldes na Líbia para derrubar Muammar Kadafi. O resultado foi, além da queda do ditador, o atentado cometido por grupos antes opositores contra o consulado americano em Benghasi no 11 de Setembro de 2012.

Barack Obama não armou os rebeldes sírios e não interviu até agora justamente porque leva em conta todos os fatores acima. Sua política para a Síria tem sido correta. Mas talvez ceda a pressões como as de John McCain e acabe cometendo o equivoco de se meter na Síria, um país que não tem solução, a não ser uma trégua com a partilha do país na prática entre rebeldes e governo até, sabe-se lá quando, haver um acordo para uma transição política.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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