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Você emigraria para a Europa se fosse sírio?

gustavochacra

05 Setembro 2015 | 18h17

Sabe esta sensação que as pessoas estão no Brasil, de que a crise não irá passar e talvez seja melhor fazer as malas e tentar a vida em outro país? Quantas pessoas já nos disseram que querem vir aqui para os EUA ou para a Europa? Não são apenas pessoas de classes mais baixas, que historicamente imigram para Nova Jersey e Massachusetts em busca de empregos. Mas também brasileiros de classe média e da elite.

Este fenômeno ocorre no Brasil, um país democrático, uma economia gigante e com instituições fortes, como vemos nas recentes ações da Polícia Federal para combater corrupção. A frustração se dá porque a economia brasileira passa por uma de suas maiores crises em duas décadas, com inflação e recessão. Some-se a isso, uma insatisfação com a classe política e a violência urbana.

Agora, imagine se você é da Síria. Imagine que você tem um restaurante. O seu filho mais velho se formou em engenharia, se casou e tem um bebê. A filha do meio faz medicina. O mais novo está no Exército de Bashar al Assad.

Todos os dias, você precisa lidar com fornecedores que importam bebidas via Líbano. No caminho, precisam pagar propina em checkpoints do governo. Os vegetais tiveram o preço dobrado porque cruzam por áreas rebeldes, onde também precisam pagar propina para os militantes. E os clientes praticamente desapareceram do restaurante.

As aulas da sua filha na universidade costumam ser suspensas. Ela tenta ajudar feridos em um hospital, mas os remédios são escassos e cobram ágio para conseguir insulina para portadores do diabetes Tipo 1 e medicamentos de esclerose múltipla. Seu filho mais velho perdeu o emprego e te ajuda atendendo mesas no restaurante. O mais novo faz um ano que não aparece e está baseado em Aleppo, de onde eventualmente envia mensagens de texto. Seu sobrinho, que também estava no Exército, morreu em um ataque da Al Qaeda.

Na Igreja Ortodoxa em Bab Touma, a área cristã de Damasco, seus amigos contam histórias sobre os cristãos massacrados em áreas nas mãos dos rebeldes. Você não gosta do atual regime e nunca foi com a cara de Assad, mas teme ainda mais o radicalismo religioso da oposição. ISIS (Grupo Estado Islâmico ou Daesh) e a Al Qaeda não são apenas uma ameaça, mas uma realidade. Com o atual regime, pelo menos você pode ir à igreja sem ninguém querer cortar a sua cabeça.

Muitos amigos do seu filho mais velho, que se formaram com ele na Escola de Engenharia da Universidade de Damasco, partiram para o Líbano. Mas reclamam da falta de oportunidades em Beirute. Os que conseguiram ir para a Alemanha estão mais satisfeitos e um deles diz que pode arrumar um emprego para seu filho em uma loja que ele abriu em Hamburgo. Uma amiga diz que sua filha pode transferir a faculdade de medicina para a Holanda.

Você conseguiu, ao longo da vida, economizar cerca de 20 mil euros. Será que você não usaria este dinheiro para enviar seu filho mais velho para a Alemanha e a sua filha para a Holanda, enquanto torceria para o caçula voltar a salvo da guerra? E será que seu filho não pegaria um barco com a mulher e os filhos pequenos?

Se brasileiros querem imigrar por causa da corrupção e da crise econômica, o que você faria se o seu país tivesse morrido? A Síria, simplesmente, morreu. Pode até renascer, como outros países que passaram por guerra civil, como o Líbano, Bósnia e Ruanda. Mas irá demorar ainda uma geração

E, sem querer ser pessimista, eu avalio que o conflito na Síria ainda não chegou ao seu pior momento.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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