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Você já pensou como seria a sua vida em Aleppo?

gustavochacra

07 de julho de 2015 | 11h48

No meu prédio em Nova York, vivem duas senhoras libanesas. Imigraram no começo da Guerra Civil do Líbano, nos anos 1970. Uma veio estudar medicina. A outra veio trabalhar na ONU. Converso muito com ambas, que ainda tem na memória uma Beirute cosmopolita sem similar no mundo hoje. Literalmente, um lugar que, como Smyrna e Alexandria, reunia o melhor do Ocidente e do Oriente.

Neste domingo, elas trouxeram uma amiga síria. Uma senhora elegante, que facilmente poderia ser confundida com alguém do Leblon, de Higienópolis ou dos Jardins. Parecia uma sócia do clube Harmonia de São Paulo ou do Country no Rio. Mas ela, na verdade, ela é de Aleppo. E, assim como as libanesas, deixou seu país por causa da Guerra Civil. A diferença é que, no caso dela, o conflito ainda está longe de terminar.

Aleppo, para quem não sabe, foi um dos grandes centros comerciais da humanidade, no corredor que une a Ásia e a Europa. É uma cidade milenar. E uma metrópole do século 21. Até 2011, tinha suas qualidades e defeitos. Diferentemente de Damasco, a capital, Aleppo era mercantil. Sempre teve uma classe média educada e multireligiosa. Os judeus, por séculos, fizeram parte do caldeirão religioso desta cidade, onde ainda convivem cristãos ortodoxos, assírios, armênios, muçulmanos sunitas, alauítas e drusos.

No começo da Guerra da Síria, Aleppo estava como Damasco – uma espécie de bolha em um país em guerra. Em 2013, porém, a guerra chegou forte a Aleppo, como um tsunami. Hoje a cidade se divide entre a área controlada pelo regime e a área controlada pelos rebeldes, muitos deles ligados à Al Qaeda. Grande parte foi destruída, incluindo a cidade velha, que era uma das mais bem preservadas do mundo com seus suqs (mercados). O governo bombardeia seus inimigos, que respondem com atentados terroristas.

Centenas de milhares de moradores de Aleppo fugiram. Os que tiveram mais sorte, para o exterior. Outros, para a costa mediterrânea ou Damasco, ambas controladas pelo regime de Bashar al Assad. Muitos, porém, tiveram que permanecer em uma cidade em guerra.

A senhora de Aleppo, em 2013, quando a guerra chegou à sua cidade, se mudou com o marido para o Cairo. Engenheiro mecânico, ele conseguiu um bom emprego na capital egípcia. Mas o Egito também está em crise. Depois de seis meses sem receber salário, deixou o emprego e voltou para a Síria. Hoje, segundo a mulher, ele tem de se esconder no corredor do prédio quando escuta os bombardeios.

Ela está temporariamente nos EUA, mas recentemente esteve na Síria visitando o marido e os filhos. Viajou para Beirute, pegou um táxi para Damasco e, de lá, um ônibus para Aleppo – é a forma mais segura de chegar à  cidade, antes ligada por avião a várias capitais europeias. Na sua visão, absolutamente todos os lados envolvidos no conflito são ruins e não existe perspectiva nenhuma. Sua única torcida é para a guerra acabar e Aleppo se reconstruir, assim como Beirute depois de ser arrasada nos anos 1980.

Como a senhora de Aleppo, há milhões de sírios. Até 2011, eles viviam em uma nação estável, por incrível que pareça. Tanto que era para a Síria que os iraquianos, especialmente os cristãos, fugiram depois da invasão americana em 2003. Ela ainda tem a sorte de poder vir aos EUA. Mas seu marido e outros milhões são prisioneiros da maior Guerra Civil do século 21.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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