A CHAVE DO COFRE EUROPEU ESTÁ COM A ALEMANHA E MERKEL NÃO ABRE MÃO

A CHAVE DO COFRE EUROPEU ESTÁ COM A ALEMANHA E MERKEL NÃO ABRE MÃO

Jamil Chade

10 de julho de 2012 | 18h11

 

FRANKFURT – O governo alemão está disposto a refundar o projeto europeu. Mas não abre mão de ter as chaves do cofre. Nesta terça-feira, a zona do euro escolheu o alemão  Klaus Regling para chefiar o futuro Mecanismo de Estabilidade Europeu, o fundo de resgate permanente que será estabelecido para tentar frear a crise e que terá pelo menos 500 bilhões de euros. Regling já era o gerente do fundo provisório desde 2010. Mas Berlim fez questão de o manter no cargo de forma indeterminada e presidir sobre o mecanismo que deve ser criado para resgatar países em dificuldade. O governo de Angela Merkel deixou claro: a posição de gerente do fundo não estava aberta à candidatos e nem à barganhas políticas.

O cargo é considerado como chave na nova estrutura do euro. Com 61 anos, Regling conhece as entranhas da moeda única como poucos. Foi um dos responsáveis por montar o Pacto de Estabilidade, que há quase 20 anos daria o primeiro passo a criação do euro.

O alemão trabalhou no FMI e foi instrumental no esforço de unificar as duas Alemanhas. Só deixaria o governo quando os sociais democratas assumiram o poder com um plano de aumentar gastos públicos.

Passaria para o outro lado – a Comissão Europeia – onde tentaria justamente fazer com que governos aplicassem o Pacto de Estabilidade. Desde sua criação, o mecanismo que coloca tetos para dívidas foi violado em 88 ocasiões e nunca nenhum país foi punido. Ele conhece tão profundamente a moeda europeia que chegou a ser contratado por um hedge fund de Londres justamente para especular em torno da moeda.

Anos mais tarde, admitiu sua surpresa diante dos problemas enfrentados pelo euro e reconheceu que jamais pensaria que o continente precisaria de um fundo permanente para socorrer a região. Ele também admitiu nos últimos anos erros profundos na conceitualização da moeda única. Em declaração em 2011, o alemão reconheceu que a união monetária deveria ter considerado pontos como a competitividade das diferentes economias, e não apenas tentar unir diferentes países.

Agora, vai presidir o mecanismo permanente, justamente registrado em Luxembrugo, um paraíso fiscal. Sua escolha não foi por acaso. A Alemanha contribuirá com quase 190 bilhões de euros.

Mas muitas dúvidas continuam a atormentar o cargo. O primeiro deles é a fonte do dinheiro. Até agora, não está claro como a UE vai arrecadar os fundos. O segundo obstáculo é a falta de transparência sobre como ele será administrado. Em Frankfurt, analistas na Bolsa de Valores insistem em relembrar que, há pouco mais de dez anos, Regling apresentou em uma conferência sua visão sobre a reforma do FMI e deixou claro que havia uma escolha a fazer: maior transparência ou eficiência. Para traders, mesmo que o gerente seja alemão, o mercado não o poupará se tormar decisões pouco claras.

Regling e a Alemanha terão a chave do cobiçado cofre. Mas em um continente que pena para encontrar um caminho para sair da crise, poucos se atrevem a dizer se o dinheiro desse cofre seria suficiente para salvar o euro.

Tendências: