A comunidade internacional da as costas aos refugiados sírios

Jamil Chade

31 de março de 2016 | 08h42

GENEBRA – Acompanhar refugiados sírios pelos caminhos da Europa, como eu fiz, gera um sentimento de revolta e impotência. Mas depressão mesmo é sentar em uma reunião da ONU e ver como o mundo da as costas a uma população desesperada.

Ontem, na magnífica sala 20 da sede das Nações Unidas em Genebra, acompanhei por mais de cinco horas discursos cínicos de governos sobre o que fazer com o maior fluxo de refugiados desde 1945. E, apesar dos apelos desesperados, vídeos de crianças chorando e um esforço para mostrar que aquelas pessoas não são nem criminosos e nem terroristas, a ONU fracassou em convencer governos a abrir suas fronteiras.

No total, a entidade buscava encontrar compromissos de governos para receber 480 mil sírios, considerados como uma população vulnerável dentro dos 4,8 milhões de refugiados gerados pela guerra em Damasco. Mas poucos foram os países que se comprometeram a aumentar as vagas, enquanto Washington ou Bruxelas se limitavam a repetir promessas já feitas no passado, e não cumpridas.

No ano passado, os governos indicaram que receberiam 179 mil pessoas. Com a reunião de ontem, a taxa foi elevada para 185 mil, apenas 6 mil novos lugares. O governo americano, por exemplo, apenas reafirmou a promessa anterior de ampliar em 10 mil as vagas para refugiados. Itália e Suécia incrementaram a oferta em algumas centenas de lugares, enquanto a Rússia indicou que vai oferecer 300 bolsas para estudantes sírios, contra uma projeção inicial de 150.

O comissário europeu de Imigração, Dimitris Avramopoulos, se limitou a dizer que a UE «cumprirá a parte que lhe toca ». Mas deixou claro que a Síria não é um problema europeu, mas sim um « problema global ». Em outras palavras: não esperem que a Europa resolva a crise.

Prova disso é que, para o encontro que deveria ser de cúpula, a Europa optou por esvaziar o evento e não mandou ministros dos governos nacionais.

O encontro, assim, acabou se transformando em uma troca de acusações, com países do Oriente Médio e a ONU partindo para a crítica contra a Europa e outros países ricos diante do fechamento das fronteiras para refugiados sírios.

«Para cada três libaneses, temos um refugiado », disse Rachid Derbas, ministro de Assuntos Sociais do Líbano. «Aqueles na Europa que estão preocupados com o fluxo de refugiados precisam lembrar que, em apenas um vilarejo libanês de 30 mil pessoas, 80 mil refugiados hoje tentam sobreviver », explicou.

O ministro ainda alertou. « Temos 2 milhões de refugiados. Se isso continuar, o Líbano viverá uma situação de fragilidade e pode ser mais um problema para o mundo e portas abertas para os ventos do terrorismo », disse.

O governo da Turquia, com 2,7 milhões de refugiados sírios, também criticou a UE. « Já gastamos US$ 10 bilhões com os refugiados. Mas a ajuda internacional é muito pequena. Até agora, recebemos apenas US$ 460 milhões » disse o vice-ministro de Relações Exteriores da Turquia, Ali Naci Koru.

Ele ainda alertou : « não é porque estamos próximos que temos de assumir toda a responsabilidade ». Segundo ele, dos 2,7 milhões de refugiados, apenas mil foram reassentados pelo mundo. Em 2016, foram apenas 206 pessoas.

Amr Ramadan, embaixador do Egito na ONU, também foi crítico contra Bruxelas. «A UE pode fazer muito mais do que tem feito », disse. «Vemos com consternação como a crise está sendo usada como um jogo político »,afirmou. «É chocante ver como esses países fecham suas portas. E a comunidade internacional está em silêncio diante daqueles que fecham suas fronteiras, confiscam a propriedade dos refugiados », atacou.

Saja Majali, embaixador da Jordânia, deixou claro que a crise dos refugiados se transformou em uma crise orçamentária para Amã. « Hoje, 25% de nosso orçamento vai para lidar com refugiados sírios », disse. « Somos um dos países com a maior falta de água no mundo. Mas o consumo aumentou em 22% em cinco anos diante do fluxo de refugiados », afirmou.

Filippo Grandi, o alto comissário da ONU para Refugiados, admite que não há como dar uma solução para a crise sem a colaboração de todos. « Não podemos mais fechar as fronteiras e deixar todo o peso para os países da região», disse. « Se a Europa tivesse de receber a mesma proporção de refugiados do Líbano em comparação à sua população, a UE teria de abrir suas portas para 100 milhões de pessoas. O mundo precisa mostrar solidariedade », afirmou.

Ban Ki Moon, secretário-geral da ONU, também apelou por «solidariedade ». « Peço que novas promessas sejam feitas para admitir refugiados. Até agora, 178 mil lugares foram oferecidos. Mas essas vagas podem ser ampliadas », disse.

Ban ainda criticou partidos políticos que tentam «demonizar » o fluxo de refugiados. «Isso não apenas é ofensivo, mas é factualmente incorreto », disse. « Peço que os líderes lutem contra informações incorretas com a verdade », afirmou. « Hoje, essas pessoas são refugiados. Mas, amanhã, serão professores, pesquisadores e trabalhadores », disse.

Por enquanto, porém, os apelos não foram ouvidos. E, como disse o alto comissário da ONU para Direitos Humanos, Zeid Hussein, “esses refugiados tem a morte em suas costas e um muro em suas caras”.