A Copa ameaça o caráter democrático do futebol

Jamil Chade

03 de julho de 2013 | 05h08

Quando os jogadores da Nigéria chegaram à Salvador para um jogo da Copa das Confederações, a promessa a eles era de que tinham chegado à cidade mais afro-brasileira do País. Não deixava de ser verdade. Mas quando entraram em campo no novo estádio, um deles comentou com o resto do time ao olhar para a arquibancada. “Parece que somos os únicos negros em campo hoje…”.

Num país que esconde seu racismo evidente, a Copa das Confederações revelou uma vez mais a disparidade social do Brasil. Bastou elevar o preço dos ingressos para que os torcedores fossem de outra classe social e de outra cor.

Não se pode negar que aqueles que foram aos estádios deram um show. Felipão agradeceu. Mas a realidade é que o torcedor que, a cada fim de semana, sofre dentro de lotações para ver seu time no campeonato brasileiro ou regional e tem de frequentar banheiros imundos nos estádios não estava nas arquibancadas e dificilmente estará presente na Copa do Mundo de 2014.

Uma pesquisa realizada pelos organizadores mostrou que menos de 1% dos torcedores que foram aos jogos da Copa das Confederações ganhavam um salário mínimo. Alguns fizeram um esforço financeiro para ver os grandes craques, mas outros tantos nessa classe social ganharam os ingressos em promoções ou de empresas.

Num país em que se recusa a admitir seu racismo, a elevação dos preços dos ingressos “branqueou” as arquibancadas e tirou, pelo menos por algum tempo, o caráter democrático do futebol. Difícil explicar a um estrangeiro que não existe racismo no Brasil quando a realidade é que basta o ingresso ser mais caro para que a cor das arquibancadas mude.

Essa realidade não era evidente apenas em Salvador. O público no Maracanã também era outro daquele que normalmente vai ao estádio.

Não há dúvidas de que o caráter do futebol de ser acessível a todos fica suspenso durante esses eventos. A culpa não é só da Fifa. A desigualdade é fruto de nossa história.

A Fifa sabe que os torneios ameaçam a democracia do futebol. O governo também. Mas o que será feito para remediar isso não passa de migalhas. A Fifa anunciou na segunda-feira que a Copa de 2014 terá os menores preços da história. O que não disse é que esses ingressos mais baratos serão limitados e que só valerão para a primeira fase, aquela em que se ve jogos do naipe como Estônia x Iraque ou Austrália x Bolívia.

A realidade é que descobrimos mais um legado da Copa: a de que a disparidade social e o abismo entre diferentes grupos no Brasil ainda não foram superados. E, se parte da solução está nas mãos da Fifa ao anunciar em pouco mais de um mês os preços dos ingressos para a Copa, a constatação é de que o trabalho de construir uma nação justa está longe de terminar.

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