A Copa como ela é

Jamil Chade

14 de junho de 2013 | 07h56

RIO DE JANEIRO – Já dizia Nelson Rodrigues que “o pior cego é o míope, e pior que o míope é quem enxerga bem, mas não entende o que enxerga”.

A partir de hoje e pelos próximos 15 dias, este blog deixará as terras europeias para se dedicar a mostrar um pouco dos bastidores da Copa das Confederações e a preparação para a Copa do Mundo. Não se trata, como diria o cronista, de criticar até minuto de silêncio ou dizer que nada disso vale. Mas tentar informar o que é de fato que estamos vendo, quem está ganhando, quem está perdendo e quem está pagando a conta desses mega-eventos.

Antes mesmo da bola rolar nesse blog, insisto já de início: não se trata de um ufanismo às inversas, de torcer para a seleção tropeçar em si mesma ou de uma parte do estádio desabar para gritar um hipócrita “imagina na copa…”. Mas sim garantir que na reta final de as obras, das isenções tributárias, dos lucros de alguns poucos e a conta de outros tantos sejam transparentes, democráticas. E garantir que, no final, alguém prestará contas por tudo isso. E se tudo isso vier com uma taça, ainda melhor.

Vivendo na Suíça há mais de uma década, eu posso já dizer: assim que a Copa terminar em 2014, a Fifa desmontará seu circo e partirá para seu próximo empreendimento. E ficará a nós contar os lucros, os mortos e feridos.

Nelson Rodrigues insistia muito em apontar que a vitória do Brasil na Copa de 1958 deu um desfecho a um período em que vivemos um complexo de vira-lata, um período de Jeca Tatu. “O brasileiro se punha de cócoras diante do mundo. Isso aconteceu no curto período entre 1500 e 1958, de Cabral a Garrincha”, escreveu.

Os novos mega-eventos teriam, para alguns políticos, o mesmo efeito de superar essa realidade, mas desta vez numa dimensão ainda maior, política e econômica. Lula, em 2009, insistiu que, quando o Rio de Janeiro ganhou o direito de sediar os Jogos Olímpicos de 2016, foi o Brasil que ganhou reconhecimento internacional. O governo não perde uma só oportunidade para dizer que quer mostrar ao mundo que tem a capacidade de organizar um mega-evento.

Copa, Jogos e outros mega-eventos, no fundo, se transformaram em braços de uma estratégias de países emergentes e dos Brics para se projetarem no cenário internacional.

Pequim realizou os Jogos de 2008, a África do Sul teve a Copa de 2010, a Índia organizou em 2012 o Commonwealth Games, Brasil terá seu Mundial e seus Jogos Olímpicos e a Rússia terá Jogos de Inverno em 2014 e a Copa de 2018.

Certamente um evento exemplar terá repercussões positivas. Mas a verdade é um pouco mais complexa que isso. A Dinamarca nunca recebeu a Copa do Mundo e nem por isso sofre com a falta de reconhecimento.

A bola está prestes a rolar e ninguém tem a coragem de dizer que não gostaria de ver o Brasil campeão, agora e em 2014. Mas entre torcer e distorcer, a distância é grande.

Sem ilusão, não podemos deixar que uma eventual vitória impeça ver para além do papel picado ou que elogios no exterior sobre os estádios nos faça acreditar que tudo valeu à pena. Não estamos mais em 1958, quando muitos ainda questionavam se fazíamos parte da família das nações civilizadas.

Se tomarmos as promessas feitas há seis anos, quando a Fifa escolheu o Brasil para sediar seus eventos, o número de mentiras que nos foi contado é amplo. Primeiro disseram que todos os estádios seriam feitos com dinheiro privado. Disseram também que nem Ricardo Teixeira nem João Havelange estavam envolvidos no maior esquema de corrupção do esporte moderno. Já a empresa – e é assim que chamo a Fifa –terá o Mundial com o maior lucro de sua história.

Entendo. Alguém vai me dizer: “mas deixe de ser chato e vá buscar algo mais útil para fazer que criticar cartola”. Nelson Rodrigues já dizia isso. “Num velório, ou num batizado, numa catedral ou numa farmácia, há sempre alguém metendo o pau no famoso dirigente”.

Verdade. Mas agora tudo isso é feito supostamente em nosso nome, para o nosso bem e, portanto, com o nosso dinheiro.

A Copa é um teste da imagem internacional do Brasil. Mas não como os dirigentes nos apresentam. O que fará que o mundo tire o chapéu para nós será baseado também na nossa capacidade de questionar e cobrar os dirigentes, de não permitir que nomes de corruptos sejam emblemas de estádios públicos e que esses eventos beneficiem a muita gente. Cabe a nós garantir que os monumentos construídos com nosso dinheiro não se transformem em monumentos em homenagem a uma oportunidade perdida.

Enfim, um evento que nos permita questionar e deixar claro a dirigentes – esportivos ou não – de que não aceitaremos ser enganados por uma máquina de marketing e dezenas de spin-doctors que estão circulando pelo Rio.

Mario Filho foi explícito ao falar do impacto da derrota de 1950 na introdução de seu livro O Negro no Futebol Brasileiro. “Quem perdeu em 1950 foi o brasileiro. Mais o brasileiro que não jogou do que o que jogou”.

Com ou sem a taça em 2013 e 2014, que essa realidade não se repita.