A hipocrisia internacional diante do Ebola

Jamil Chade

13 de outubro de 2014 | 08h17

Europa e EUA temem o ebola ou a pobreza?

 

GENEBRA – Em 1976, o vírus do Ebola foi identificado por cientistas belgas. Desde então, ele foi amplamente estudado e hoje, basicamente, se conhece tudo sobre a doença. Mas então por qual motivo não existe tratamento e nem vacina?

Eu fiz essa pergunta ao especialista que descobriu a doença, Peter Piot. Sua resposta beirou à hipocrisia. Segundo ele, em 28 anos, “apenas” 1,5 mil pessoas morreram.

O que ele não disse foi que todas essas 1,5 mil vítimas eram africanos miseráveis.

Eu me pergunto: se 1,5 mil franceses, alemães e americanos tivessem morrido de uma doença, será que ela continuaria a ser negligenciada pelas bilionárias empresas de remédios ou pelos investimentos dos governos?

Hoje, a Europa e os EUA estão diante de um desafio: a eventual chegada do vírus a suas casas. Rapidamente, governos estão iniciando mega-operações e colocando todo o tipo de controles em aeroportos.

Mas o que eles realmente temem, se seus hospitais são os mais modernos que a civilização já ergueu? Temem o vírus ou o reconhecimento de que, ao abandonarem populações inteiras por décadas, as condenaram à morte?

Para a OMS, o Ebola é um exemplo de um “doença negligenciada”, mais uma expressão criada pela diplomacia internacional que esconde a realidade de forma magistral.

Vamos ser claros: não existem doenças negligenciadas. O que existem são sociedades negligenciadas.

Um estudo publicado na revista Lancet indicou que, entre 1975 e 1999, 1,3 mil novos remédios foram desenvolvidos no mundo.

Quantos deles foram para as doenças negligenciadas? 16. Claro, quem morre dessas doenças não conta.

As empresas que precisam prestar contas a seus acionistas se defendem: não há como produzir um remédio para um grupo de pessoas que não tem dinheiro não para se alimentar.

Minha pergunta é simples: e quem presta contas à humanidade e à história?

Agora, americanos e europeus correm cinicamente para mandar dinheiro, médicos e equipamentos para Serra Leoa, Libéria e Guinea.

Hoje, obviamente o pânico é em parte o resultado do imaginário coletivo sobre a chegada de uma doença supostamente desconhecida num grande centro urbano.

Mas é, acima de tudo, o pânico de ter de se confrontar com a dura realidade de que a desigualdade social mata. E todos os dias.

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