A pergunta persiste: qual o telefone da Europa?

Jamil Chade

30 de dezembro de 2009 | 11h34

GENEBRA – Nos anos 70, o entao secretário de Estado norte-americano, Henry Kissinger, ironizou a situaçao da integraçao européia ao questionar qual seria o número de telefone que deveria usar para a falar com a Europa. Se Kissinger fosse obrigado a telefonar mais uma vez para a Europa em 2010, nao acharia que sua frase está tao ultrapassada.

A partir de 1 de janeiro, a Uniao Européia terá dois presidentes: a Espanha, que assume o cargo rotativo até julho, e o presidente permanente Herman Van Rompuy, que acaba de ser eleito. Isso sem contar com o presidente da Comissao Européia, José Manuel Barroso, e a nova ministra das Relaçoes Exteriores, Catherine Ashton.

A complicada arquitetura foi fruto do Tratado de Lisboa que dá uma maior institucionalizaçao para a Europa, mas nao retira os governos nacionais da cena. Trata-se de mais um passo para a supranacionalidade. Mas com governos ainda hesitantes em abrir mao completamente de sua soberania.

A Espanha terá a dura tarefa de implementar o tratado que abre uma nova era para a Europa e tenta garantir um maior peso do continente nos temas internacionais. Para os mais otimistas, a Europa ganha novas instituiçoes que transformarao a integracao em um projeto ainda mais irreversível.

Mas o resultado também é um complexo sistema que já começa a gerar atritos. José Luis Rodriguez Zapatero, o presidente do governo espanhol e de olho em alavancar sua popularidade, receberá cúpulas como a da América Latina – Europa e com Barack Obama. Mas será Rompuy quem presidirá os encontros.

Na agenda da Espanha está o relançamento economico da Europa. Mas foi Rompuy que tomou a iniciativa de convocar para Bruxelas uma cúpula no dia 11 de janeiro para tratar do assunto econômico e de superar a crise financeira.

Miguel Angel Moratinos, o ministro de Relaçoes Exteriores da Espanha, garante que nao haverá problema e que cada um saberá qual seu papel. Mas já deixou claro que quer estar ao lado de Ashton quando ela for lidar com o Oriente Médio, América Latina e países do Mediterrâneo, uma nova aposta espanhola. Na agenda ainda está a situaçao no Afeganistao, a relaçao estratégica com a China e a adesao da Turquia.

Nao há dúvidas de que a UE é o projeto de maior sucesso na história contemporânea da integraçao entre países. Em apenas 65 anos, o continente passou de uma guerra sem precedentes para a paz. Ainda assim, a resposta para a pergunta de Kissinger continua vaga.

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