A última aparição pública de Mandela

A última aparição pública de Mandela

Jamil Chade

05 de dezembro de 2013 | 20h41

Reproduzo abaixo a matéria que escrevi em 11 de julho de 2010 na gelada Johannesburgo, sem saber que aquela seria a última aparição pública de Nelson Mandela ao mundo e ao povo sul-africano.

 

JOHANNESBURGO – 11.07.2010 – “Muito obrigado por ter trazido a Copa para a África”. O agradecimento humilde presenciado pelo Estado nos bastidores do estádio Soccer City foram as últimas palavras que o prêmio Nobel da Paz, Nelson Mandela, disse aos cartolas da Fifa e representantes de seu governo ao deixar o estádio ontem. Nem Espanha, nem a seleção da casa – a África do Sul. Quem entrou em campo e recebeu provavelmente a maior ovação de toda a Copa de 2010 foi o ícone da luta contra o apartheid. Pela televisão, mais de 700 milhões de pessoas acompanharam a final e a rara aparição do líder africano.

Mandela teve uma participação central na conquista da África do Sul para ser sede da Copa, em 2004. Visitou líderes, enviou cartas e fez apelos pessoais. Queria a Copa para colocar a África do Sul definitivamente no mapa mundial. Ontem, seu agradecimento foi recebido como a culminação de seu esforço por, primeiro, mudar o país internamente e depois transformar a imagem da África do Sul pelo mundo. Mandela, segundo pessoas próximas a ele, tinha a consciência de que a Copa teria um impacto para a imagem de seu país que nenhum outro evento jamais conseguiria.

O maior ícone africano vivo percorreu a linha do meio campo do estádio em um carro de golf, em um trajeto que levou apenas alguns minutos. Para enfrentar o frio, luva, chapeu e muita roupa. Ao sair do campo, Mandela foi recebido por toda a cartolagem da Fifa, que o acompanhou diretamente ao carro.

Acompanhado pelo Estado, o momento da partida de Mandela do estádio não deixou de emocionar nem os sérios cartolas.

Mandela tinha sua presença marcada para a abertura da Copa, há um mês, e a esperança era de que inspirasse a seleção sul-africana. Mas a morte tráfica de uma de suas bisnetas na noite anterior à abertura mudou seus planos e colocou a família mais famosa do país em luto. Com 91 anos e uma saúde frágil, Mandela surpreendeu ontem aos quase 85 mil pagantes ao entrar em um carro de golf ao lado de sua mulher.

Mas sua presença não ocorreu sem uma troca de farpas entre a família Mandela e a Fifa, ávida por lustrar seu brasão e sua imagem de pouca credibilidade com a presença da personalidade que simboliza a paz e a justiça. Ontem, a família de Mandela criticou a Fifa por estar pressionando o prêmio Nobel a ir ao estádio e participar da festa ao lado de astros de Hollywood, 17 chefes de estado e cantoras como Shakira. “Estamos de luto e precisamos permitir meu avô a também se proteger do frio. A Fifa deve levar isso em consideração e parar de pressionar”, disse o neto de Mandela, Mandla Mandela, espécie de porta-voz da família.

Mas em uma Copa que está sendo considerada como o maior momento de euforia no país desde a libertação de Mandela há 20 anos, sua presença em campo era algo desejado não apenas pela Fifa, mas pelo próprio governo. Em 1995, Mandela teria inspirado a seleção local de rugbi no campeonato mundial disputado no país. A África do Sul surpreendeu e acabou vencendo.

Os acenos quase tímidos e um sorriso inconfundível foram suficientes para deixar todo um estádio estático. Os sul-africanos que não estavam ainda nas arquibancadas pulavam de alegria ao ver Mandela pelos telões espalhados pelos corredores do Soccer City. “Não posso acreditar, não posso acreditar”, gritavam seguranças e funcionários dos bares do estádio ao ver Mandela.

 

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